Jacinta Passos, uma novantiga poeta é o texto sobre Jacinta que está no novo número (o 12) de Sidarta - jornal de artes e personagens, editado pela escritora Sonia Coutinho. O número tem colaboração apenas de mulheres, que escrevem sobre livros, poesia, literatura, sonhos... Vale a pena conferir, neste link: http://jornalsidarta.blogspot.com/
Blog sobre a poeta Jacinta Passos (1914-1973), cuja obra completa, esgotada há anos, foi recentemente publicada. Aqui são acrescidas mais informações, e é registrado tudo o que está acontecendo em torno da obra e da figura apaixonante de Jacinta.
22.10.11
21.10.11
Jacinta Passos na Bienal do Livro da Bahia
A trajetória de vida e os poemas de Jacinta estarão presentes no Café Literário da X Bienal do Livro da Bahia, em Salvador, no dia 06/11 próximo, às 20:00 hs, numa mesa em que serão discutidas biografias de três baianos. Nelson Motta falará sobre a biografia que escreveu do cineasta Glauber Rocha, Jorge Ramos falará sobre a biografia qe fez do músico e criador de filarmônicas em Cachoeira, Tranquilino Bastos, e Janaína Amado falará sobre a biografia que escreveu da poeta e jornalista Jacinta Passos, sua mãe. Deve dar um bom papo!
Título: Biografia: em busca de uma grande história
Participantes: Nelson Motta, Janaína Amado, Jorge Ramos.
Mediador: José de Jesus Barreto
http://www.bienaldolivrodabahia.com.br/
26.9.11
Canto de louvor perfeito
Consagração
As minhas mãos, minhas humildes mãos,
têm gestos puríssimos de bênção.
Meus pés descobrem caminhos desconhecidos.
Meus lábios dizem palavras que não são minhas,
palavras divinas de amor.
Minha inteligência concebe pensamentos eternos.
Minha alma sofre o peso de dor infinita.
E das profundezas misteriosas de minha vida
transubstanciada,
sobe para ti um canto de louvor perfeito.
[Este poema, escrito em 1938, integra o primeiro livro de Jacinta Passos, Momentos de poesia, publicado em 1942. Pertence à sua fase religiosa, em que a poeta busca a salvação pessoal através do diálogo com o sagrado.]
28.8.11
Cruz das Almas, cidade natal de Jacinta
Jacinta Passos nasceu em 1914 na Fazenda Campo Limpo, município de Cruz das Almas, região do Recôncavo, Estado da Bahia. Poucos anos antes do nascimento de Jacinta, Cruz das Almas tornou-se vila (1889) e a seguir cidade (1896), sede de município do mesmo nome, separado do município de São Felix. Grandes fábricas de charutos, como a Daneman e a Suerdieck, vieram juntar-se às fábricas caseiras ali existentes, tornando Cruz das Almas um grande centro produtor da matéria-prima e da fabricação de charutos de alta qualidade. O aspecto da cidade, porém, permaneceria acanhado, com aparência rural, por décadas ainda.
As primeiras gerações dos Passos, inclusive a de Jacinta, constituídas por grande número de políticos, foram fortemente influenciadas pelos laços com Cruz das Almas, berço da sua gente, da sua projeção política, proventos, mentalidade e sensibilidade. A cidade natal e sua gente aparecem em vários poemas de Jacinta Passos.
* Fotos antigas da cidade cedidas por Lita Passos,
16.8.11
A casa da fazenda Campo Limpo
Esta foto é da Fazenda Campo Limpo, município de Cruz das Almas, Bahia, onde Jacinta Passos nasceu. A foto foi tirada de dentro da sala da casa principal, construída em 1865, onde moraram bisavós, avós e pais de Jacinta, e onde ela nasceu e viveu até os 12 anos de idade. As vivências da infância são marcantes na obra de Jacinta.
*Foto de Luiz Carlos Figueiredo, 2004.
9.8.11
1935
Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
e sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.
Jacinta Passos
Este poema foi publicado no terceiro livro de Jacinta, Poemas Politicos, editado em 1951.
1935 foi o ano de uma rebelião militar liderada pelos comunistas brasileiros. Planejada para explodir em todo o Brasil em novembro de 1935 e tomar o poder, eclodiu apenas, e de forma muito tímida, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, sendo rapidamente esmagada. Seus líderes, inclusive Luiz Carlos Prestes, foram presos.
Muitos leitores de hoje leram este poema sem conhecer a revolta de 35, e gostaram dele assim mesmo. Isso me parece demonstrar como Jacinta Passos, quando tratava de temas politicos, fazia boa poesia, nao panfleto.
*Imagem - Quadro de Candido Portinari.
26.7.11
Guerreiro Ramos escreveu sobre Jacinta Passos
O pesquisador e professor Gilfrancisco Santos, baiano radicado em Aracaju, Sergipe, autor, entre outros, de Jacinta Passos: a busca da poesia (Aracaju: Coleção GFS, 2007), localizou o texto abaixo, de 1940, escrito pelo sociólogo Alberto Guerreiro Ramos sobre a poesia de Jacinta Passos. Este texto vem acrescentar-se aos da “Fortuna Crítica” inserida no livro Jacinta Passos, Coração Militante, de Janaína Amado. Agradecemos muito ao prof. Gilfrancisco pela generosidade em disponibilizar o resultado de sua pesquisa.
Esta resenha crítica de Guerreiro Ramos refere-se à primeira fase poética de Jacinta, que corresponde aos poemas religiosos e intimistas publicados em seu primeiro livro, Momentos de poesia, de 1942. Mais tarde, Jacinta abandonaria a religião e assumiria uma poesia militante, preocupada com a transformação do mundo real, posição que transpareceu já em seu segundo livro, Canção da partida, de 1945.
Esta resenha pertence também à fase inicial do pensamento de Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982), quando, ainda radicado na Bahia, praticava sobretudo o jornalismo e a crítica literária, ambos dentro do escopo católico, bastante diverso do da sociologia e da política que mais tarde, radicado no Rio de Janeiro e nos EUA, passaria a praticar, tornando-se um dos mais proeminentes sociólogos e pensadores brasileiros do seu tempo.
Esta resenha foi originalmente publicada na revista Cadernos da hora presente, de São Paulo, que circulou de maio de 1939 a agosto de 1940, sob a direção de Tasso da Silveira. A revista tinha como objetivos publicar textos de intelectuais importantes (brasileiros e estrangeiros) e de fazer propaganda das idéias integralistas. Segundo Alberto da Costa e Silva (Revista de História da Biblioteca Nacional, Outubro de 2010, p. 31), nos números da Cadernos da hora presente “colaboraram não só integralistas e escritores que deles estiveram próximos em algum momento [...], mas também autores que não os acompanhavam em suas ideias políticas, como Abgar Renault, Alphonsus de Guimarães Filho, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Orígenes Lessa.” Jacinta Passos, que foi católica mas nunca integralista, pertenceu a este último grupo de autores.
“Jacinta Passos
“Jacinta Passos é uma personalidade forte. É uma vocação real de poeta. Sua poesia é uma poesia de salvação, de diálogo com Deus.
Jacinta Passos é da família espiritual dos contemplativos. Alma predestinada, não conheceu as tremendas realidades, a atração dos abismos. Sua poesia é um diálogo, entre sua alma e Deus. Sem dúvida, é luta. Mas luta onde não há ranger de dentes, onde não há dilaceramentos de entranhas. Há, nela, apenas, um laivo de nostalgia do paraíso perdido, do estado cerúleo. Não há dessas descontinuidades trágicas e sangrentas que encontramos nos dolorosos, em um S. Agostinho.
Jacinta Passos é inimiga do feio e do baixo. Por temperamento, ela tem a droiture de l´esprit. Seu espírito é direito. É desses temperamentos que não podem estar no meio termo. Ou são santos ou demônios. O aspecto noturno da existência a estarrece. Não gosta da noite que confunde os contornos e os imprecisa e os dilui. Tudo, nela, é claro, como uma paisagem dos trópicos. E sua experiência de Deus é, se se pode falar assim, uma experiência intelectual. Seus problemas inquietantes são os problemas da fé, de aceitar ou recusar Deus. Uma vez imersa na contemplação, aí fica e permanece, em absoluto abandono. Não precisa do conforto humano. Ao contrário, sua paixão arroja-a nos braços do Consolador Invisível. Poesia teológica, esta. Poesia absolutamente em Jesus.
Não é na terra que espera o complemento de sua imagem. Sua poesia está despida de toda nostalgia do amor puramente humano. Ela tem o gosto da solidão, de se bastar a si mesma com Deus.
Tais temperamentos não deixam de ser trágicos. Neles é que se processam as lutas mais terríveis porque, constantemente, estão entre os extremos: Deus e o Diabo. São altivos, eis o termo. Esta altivez, porém, não está livre do perigo de tornar-se um orgulho espiritual, pior do que o da carne. Daí o terrível drama ontológico das almas deste quilate.
Há — diz Newman — duas sortes de santos: a dos que se perdem completamente na vida divina e que, malgrado sua carne e seu sangue, não têm nenhum contato com a natureza humana, e a dos que, mesmo santos, não ficam, por isso, menos homens, mas compreendem o coração humano, podem aproximar-se da alma dos outros e, ao mesmo tempo em que são firmes no caminho da castidade e da paz, podem, com a imaginação, seguir os múltiplos caminhos da paixão e da vingança...
Jacinta Passos é da linhagem dos primeiros.
Jacinta Passos é uma alma difícil. Dir-se-ia claudeliana. Um espírito duro como um penhasco e, ao mesmo tempo, para falar ao gosto de Maritain, um coração doce, efetivamente, mas uma doçura sui-generis, totalmente dirigida para o sobrenatural. O mundo a “desencanta”. Aquele gosto de isolar-se, de solidão com o Cristo é uma forma do “horror à realidade dura e fria”, aos “atritos ásperos da vida”.
No exterior, só as coisas simples a comovem: um crepúsculo na manhã de sol, a música do mar...
Espírito aristocrata e nobre, o seu olhar se dirige reto para a Divina Face, em cuja contemplação se abisma e se abraça...
Os poemas que vão ser lidos apresentam Jacintas Passos como um valor autêntico da poesia brasileira.”
Guerreiro Ramos
(in: revista Cadernos da Hora Presente, São Paulo, 1940, série I, pgs. 149-150. Segue-se uma “Antologia” de Jacinta Passos, até a pg. 155, contendo os seguintes poemas, reunidos em 1942 no seu livro Momentos de poesia: “Manhã de Sol”, “Contrição”, “Consagração”, “Comunhão”, “Maria”, “Vida morta” e “Agonia do horto” )
* Imagem: o jovem Guerreiro Ramos, em idade próxima à que tinha quando escreveu a resenha crítica sobre os primeiros poemas de Jacinta Passos.
16.7.11
Mulher, feminista, comunista ...
"Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer. "
Este é o primeiro parágrafo da biografia de Jacinta Passos, escrita por sua filha Janaína. Você pode ler o texto completo da biografia no livro Jacinta Passos, coração militante (Salvador, EDUFBA e Editora Corrupio, 2010), à venda nas boas livrarias on-line.
5.7.11
Lina Arao escreve sobre Jacinta Passos
Acaba de ser lançado um livro, coordenado pela escritora e professora Helena Parente Cunha, contendo ensaios acadêmicos sobre a produção de poetas mulheres:
CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra e Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011.
Um dos ensaios deste livro trabalha a produção poética de três escritoras, entre elas Jacinta Passos. A obra de Jacinta começa, assim, a ser revisitada por estudiosos e acadêmicos, ganhando novas interpretações, olhares, intertextualidades:
ARAO, Lina. Mulher em três tempos: Luiza Amélia de Queiroz Nunes, Jacinta Passos e Marize Castro. In: CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos, pp. 226 a 263.
30.6.11
A alegria da poeta
Canção da alegria
Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?
Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.
Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!
Eh! Sai espantalho
da ponta do galho!
da ponta do galho!
Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!
Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?
Farinha fininha
peneiradinha!
nuinha! nuinha!
Jacinta Passos
(Escrito em 1944 e publicado em 1945, no livro "Canção da Partida", este é um dos poemas mais alegres de Jacinta, e também um dos mais citados pelos críticos. A partir de uma atividade então corriqueira entre as mulheres do Recôncavo baiano - peneirar a farinha de mandioca -, Jacinta constrói no poema uma metáfora da sua vida.)
21.6.11
Obra de Jacinta nas principais bibliotecas brasileiras
Há pouco tempo, o blog da Biblioteca Pública da Bahia anunciou:
"Setor de Documentação Baiana adquire novos títulos ".
Entre estes títulos, está:
"Jacinta Passos, Coração Militante - Janaína Amado
A publicação reúne todo o material encontrado a respeito de uma das figuras mais instigantes da literatura baiana do século XX: a poeta Jacinta Passos (1914-1973), nascida em Cruz das Almas, hoje praticamente desconhecida, porque suas obras estavam esgotadas."
A informação nos lembra que Jacinta Passos, Coração Militante, livro com a obra completa de Jacinta Passos, tanto a publicada quanto a até então inédita , mais sua biografia, fortuna crítica e álbum de fotos, hoje faz parte do acervo das principais bibliotecas do Brasil, e também de algumas grandes bibliotecas internacionais. Vários exemplares foram encaminhados às bibliotecas graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), que vinculou o financiamento à edição à distribuição de mais de uma centena de volumes às bibliotecas e instituições de ensino e pesquisa, enquanto outros exemplares foram adquiridos pelas próprias bibliotecas. Hoje, a poesia de Jacinta Passos está disponível a todos os leitores e pesquisadores interessados, tanto em bibliotecas quanto em livrarias.
29.5.11
Desenho de Lasar Segall para "Canção da Partida"
Em 1945, o grande artista brasileiro Lasar Segall fez uma série de onze desenhos para o livro "Canção da Partida", o segundo de Jacinta Passos, que seria publicado naquele ano, numa primorosa publicação das Edições Gaveta. Neste livro, foram aproveitados cinco dos desenhos feitos por Segall, entre os quais este, usado na capa do livro, atualmente propriedade de Janaína Amado, filha da poeta. Devido à cor parda do papel, a reprodução não consegue captar toda a beleza dos finos traços de Segall, mas se pode ter uma idéia. Os desenhos originais do grande artista estão catalogados e acondicionados no Museu Lasar Segall, e foram integralmente reproduzidos no livro "Jacinta Passos, coração militante", graças à autorização da direção do museu.
1.5.11
Canção para Maria
Canção para Maria
Por que estás triste, Maria,
como noite sem espera,
por que estás triste, Maria,
que eu vi no porto de Santos
e nos campos da Bahia?
Tua fala me responde:
sete e sete são quatorze,
caranguejo peixe é,
como custa ai! como custa
de remar contra a maré.
Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar.
Não tenho pena e consolo,
nem fuga para te dar.
Tua sorte será feita
com o poder de tua mão,
se vence fera e doença,
também fome e solidão,
se vence até a loucura
com o poder de tua mão.
Amanhã vamos à lua
diz a ciência: por que não?
se vence governo e polícia,
ó Maria,
com o poder de tua mão.
Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar
Eu já vejo amanhecendo
tão belo, no seu olhar.
Tão real como teres pés
é a fala do velho Stalin,
é o novo mundo chinês.
Tão certo como um provérbio
que a boca do povo fez.
A paz não chega de graça
como chuva cai do céu.
Quanto suor, pensamento,
quanta bravura escondida,
Maria, neste momento.
Tua sorte é de teu povo,
ninguém pode separar.
Sou povo, não sou cativo,
Quitéria pegou nas armas
Zumbi foi um negro altivo
pelas mãos deste pracinha
foi Hitler queimado vivo,
ó senhor americano,
sou povo, não sou cativo:
teu poder? Era uma vez
histórias da carochinha
e jugo do português.
Verdade tão verdadeira
nem precisa se enfeitar.
Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar.
Jacinta Passos
(em Jacinta Passos, Coração Miliante, Salvador, EDUFBA/Corrupio, 2010, pp 215-217).
[Em "Canção para Maria" estão presentes alguns dos temas caros à obra de Jacinta Passos, como a mobilização política, sua identificação com a situação das mulheres brasileiras, especialmente as mulheres pobres, do povo, e sua esperança na construção de um mundo mais justo, que identificava com o do socialisno.. Este poema foi publicado pela primeira vez em Fundamentos – revista de cultura moderna. São Paulo: Ano V, n. 31, 1953, p. 10, dos comunistas de São Paulo, que circulou ente julho de 1948 e meados da década de 1950.
Ao final do poema, estão anotados local e data de sua criação: “(São Paulo, 1952)”. Como, durante praticamente todo o ano de 1952, Jacinta esteve internada em sanatórios, no Rio de Janeiro e em São Paulo, é provável que “Canção de Maria” tenha sido escrito quando ela esteve internada.O poema foi publicado pela primeira vez em livro no Jacinta Passos, coração militante].
*Imagem: Cândido Portinari, "Mulher Chorando".
*Imagem: Cândido Portinari, "Mulher Chorando".
20.4.11
De Jorge Amado, para Jacinta
Na dedicatória da foto, está escrito: "Para James, Jacinta e Jana, o carinho do irmão Jorge. Setembro 1951 - Dobris" Assinado: Jorge.
O escritor Jorge Amado, no exílio no castelo de Dobris (onde ficavam reunidos escritores), na então socialista Tchecoslováquia, enviou foto sua ao irmão James, à cunhada Jacinta e à sobrinha Janaína, que moravam no Rio de Janeiro. No livro Coração militante, há uma carta de Jacinta Passos que se refere a esta foto.
4.4.11
A solidão da poeta
O sentimento de solidão surge poeticamente muito cedo na obra de Jacinta Passos. O poema abaixo, escrito em 1936, que viria a integrar o primeiro livro da autora, publicado em 1942, é um dos que expressam esse sentimento de solidão absoluta — que, em outros poemas, assume a assumir a forma de um sentimento de exílio:
Solidão
Há em torno de mim muralhas glaciais.
Vivo encerrada dentro de mim mesma,
debruçada
sobre estas profundezas abissais
do meu ser,
sobre esta solidão interior
de um mundo fechado,
áspera solidão inacessível
onde existe
um silêncio gelado,
amargo,
vazio.
(De "Momentos de poesia")
* Imagem: Jacinta Passos jovem, criação e montagem de Alice Puente.
31.1.11
Regina Dalcastagnè escreve sobre "Jacinta Passos, coração militante"
(Publicado no Suplemento “Prosa & Verso”, jornal O Globo, Rio de Janeiro, sábado, 29/01/2011)
Relato afetivo de um drama político e familiar
Trazer a público a trajetória e a obra de uma intelectual brasileira ligada ao Partido Comunista em meados do século passado, e esquecida hoje, não deveria ser problema para uma pesquisadora experiente no ramo, com vários livros de História publicados. Mas quando o objeto de estudo é a própria mãe, que não a criou e que passou longos anos de sua vida em clínicas psiquiátricas e sanatórios, o assunto se torna, no mínimo, delicado. E é assim, com extrema delicadeza e cuidado, que Janaína Amado reconstrói os passos de sua mãe, resgatando seus poemas, palestras, artigos de jornais, no belo Jacinta Passos: coração militante.
Num interessante jogo de distanciamento histórico e proximidade afetiva (ou vice-versa), Amado consegue montar um retrato vívido de uma mulher que enfrentou a família (de proeminentes fazendeiros e políticos baianos), a sociedade (que viu a jovem professora católica se transformar em uma ardente jornalista, abandonar a religião e se casar com um rapaz muito mais jovem) e o regime (primeiro o de Vargas e depois o dos generais de 1964). Uma mulher que lutou sem parar pelas ideias em que acreditava, que tomou as rédeas de sua própria vida e que perdeu muitas batalhas, mas que foi derrotada pela esquizofrenia – e por tudo o que significava, e continua significando, um diagnóstico como esse.
Recuperar essa história significa remar contra décadas de silêncio, da família, do mercado editorial, mas também do círculo político e intelectual que a acolheu e depois a excluiu, de diferentes maneiras. Jacinta era casada com James Amado, irmão de Jorge, e conviveu com os principais escritores e artistas de esquerda da época, especialmente em São Paulo. Foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia, com posições firmes sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a necessidade de organização das mulheres e o papel dos intelectuais na política brasileira. Chegou a ser candidata a deputada federal constituinte pelo PCB em 1945 e a deputada estadual em 1947.
Em 1951 ela estava morando no Rio de Janeiro com o marido quando, após um surto, é internada pela primeira vez (aos 37 anos), começando um tratamento à base de eletrochoques, insulina e barbitúricos. Suas crises e alucinações estavam sempre relacionadas com perseguições políticas, “expressavam cercos, agressões, torturas e assassinatos praticados pela repressão”. Jacinta foi presa duas vezes, fazendo discursos nas ruas e pichando muros, mas era liberada com a alegação da família de que tinha problemas mentais. Em 1953 seu casamento acaba e ela volta para Salvador em 1955 – sem marido e com o estigma do internamento, ela perde também seu espaço na vida política e intelectual da cidade.
A sua situação se agrava em 1958, quando ela exige a guarda da filha. Para evitar ir aos tribunais, o ex-marido pede a Carlos Marighela, dirigente do PCB e amigo do casal, que lhe diga que o partido decidiu mandar a menina à União Soviética, para estudar. Essa falsa viagem marca uma separação de 12 anos com Janaína que, quando decide finalmente revê-la, ainda no sanatório, não é reconhecida por ela como sua filha. Jacinta morre em 1973, internada, aos 57 anos de idade.
Jacinta Passos: coração militante traz a íntegra de sua poesia (os quatro livros lançados entre entre 1942 e 1958, todos em pequenas tiragens, apenas um dos quais reeditado, mas também seus poemas esparsos, nunca antes publicados em livro), seus artigos de jornal e textos em prosa e verso escritos nos últimos anos de sua vida (havia ainda sete livros inéditos e uma série de manuscritos, mas eles foram queimados pela irmã e pela mãe, temerosas por seu conteúdo revolucionário). Reúne a fortuna crítica sobre ela, incluindo artigos de Mário de Andrade e Antonio Candido, e traz um conjunto de estudos inéditos sobre sua obra. Há também belas fotos da poeta e sua família, além dos desenhos que Lasar Segall fez especialmente para o segundo livro de Jacinta, Canção de partida, publicado em 1945.
Mas talvez o mais importante da obra seja justamente a biografia escrita por Janaína Amado – um trabalho meticuloso, feito a partir de pesquisa e entrevistas com as pessoas que conviveram com Jacinta, incluindo suas próprias memórias de menina, quase sempre desconfortável, quando não assustada, diante da mãe exigente, com quem se encontrava nas férias e nas raras visitas ao sanatório. É a biografia que nos permite valorizar a obra de Jacinta Passos, reintroduzi-la na história da imprensa, da política e da literatura brasileira, fornecendo novas possibilidades de leituras sobre esse período da história cultural do país.
O livro não deixa de ser uma homenagem a essa intelectual, mas é também uma forma de dizer que a mãe não foi renegada, nem esquecida. Marca, ainda, a necessidade de lembrarmos daquelas que vieram antes de nós e que abriram os caminhos para a independência das mulheres, mesmo que com um alto custo para si próprias.
Regina Dalcastagnè
(Professora de literatura da UnB e pesquisadora do CNPq)
Janaína Amado (org.) – Jacinta Passos: coração militante (poesia, prosa, biografia, fortuna crítica). Salvador: EDUFBA/Corrupio, 2010, 574 páginas.
[*Imagem: foto de Jacinta e Janaína, Rio de Janeiro, 1951; arquivo particular de Janaína Amado)
28.1.11
Algumas opiniões de críticos
Os quatro livros que Jacinta Passos publicou receberam críticas elogiosas dos mais importantes estudiosos de literatura, escritores e críticos literários da época. Abaixo, um resumo de algumas destas opiniões:
. Jacinta Passos se firmou, com Canção da Partida, numa posição de primeira plana na moderna poesia brasileira. (Antonio Cândido, professor, estudioso e crítico de literatura)
. Na feição do poema participante, do poema de luta e de reivindicação social, Jacinta Passos fez sucesso, destacando-se como uma das vozes mais claras e gritantes da nossa poética militante. (Paulo Dantas, escritor e jornalista)
. Tudo é um canto de poesia que vai da poesia mais íntima ao canto longo da libertação, voz da maioria das mulheres conscientes e profundas. (Aníbal Machado, escritor)
. Arrebata, se comunica, ganha a alma. Prolongue a “Canção Simples”, digamos às mulheres. (Gabriela Mistral, poeta chilena, Prêmio Nobel de Literatura em 1945)
. O timbre inconfundivelmente feminino da voz de Jacinta Passos, ao mesmo tempo que lhe garante a autenticidade, a singulariza no quadro da nossa poesia participante ou engajada. (José Paulo Paes, poeta e crítico literário)
. "Canção da Partida" se caracteriza por uma sensibilidade que, por ser bem feminina, nada tem de piegas. (crítico e escritor Sérgio Milliet)
. Esta síntese entre o sabor das formas folclóricas e o sentimento da miséria dos homens, da solidariedade no sofrimento, a profecia de um mundo mais justo e mais fraternal, eu a encontro realizada com sucesso nos poemas de Jacinta Passos. (Roger Bastide, sociólogo e crítico literário francês, especialista em cultura brasileira)
. A poesia de Jacinta Passos foi lida e relida muitas vezes aqui em casa, tanto por mim como pela Guita, minha mulher, e "Cantiga das Mães" é uma de minhas preferências. Há um grande trabalho a fazer para tornar mais conhecida essa obra poética tão boa. (José Mindlin, bibliófilo)
* Imagem: foto inédita de Jacinta Passos adolescente; arquivo particular de Janaína Amado.
25.1.11
Jacinta no Planetanews
O livro de Jacinta Passos foi indicado pelo Planetanews, o site da comunidade brasileira no exterior, que traz contribuições, atividades e indicações principalmente de acadêmicos nossos pelo mundo. Para acessar a indicação, clique aqui.
11.1.11
"Coração militante" à venda também no Submarino!
Você agora pode comprar o livro Jacinta Passos, coração militante - que traz a obra completa, a biografia e a fortuna crítica da poeta e jornalista -, também no site Submarino. Para isto, clique aqui.
31.12.10
Comprimidos poéticos
Nos cadernos em que escreveu durante os últimos anos de vida, quando esteve internada na Casa de Saúde Santa Maria, em Aracaju, Sergipe, Jacinta Passos criou poemas, peças de teatro, letras de canção, textos sobre teoria da literatura. E alguns aforismos, que denominou "Comprimidos poéticos". Eis alguns deles, publicados pela primeira vez no livro "Jacinta Passos, coração militante":
Teu olho vê o que o teu coração quer.
Matéria morta: um fio do meu cabelo principia a morrer.
Criança não é propriedade – eis um princípio pedagógico.
Ver é optar.
Pensar é operar.
Morrer não é escolher.
* Imagem daqui .
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