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18.6.12

Opinião de uma leitora, Thereza Araújo






Thereza Araújo conheceu Jacinta Passos, quando ambas moravam no Rio de Janeiro, no início da década de 1950. A poeta e o marido de Thereza, o publicitário Raimundo Araújo, eram comunistas e participavam ativamente da vida política do país, encontrando-se diversas vezes para tratar de assuntos relacionados ao PCB, Partido Comunista do Brasil, ao qual os dois pertenciam. Numa dessas vezes, Jacinta foi à casa de Raimundo, acompanhada da filha, e Thereza então a conheceu.
Esta foi a nota que Thereza Araújo enviou a Janaína Amado, filha de Jacinta, após ler Jacinta Passos, Coração Militante, livro que reúne a obra completa, biografia,  fortuna crítica e iconografia sobre Jacinta, organizado por Janaína:

A visita tão esperada de Jacinta e sua filha aconteceu. Logo as recebi aqui em casa com os meus braços abertos e, parafraseando Manoel Bandeira, "nem precisavam pedir licença""! Revi Jacinta, desta vez sorridente, olhar perscutador e seguro, diferente daquela vez que ainda tenho tão nítida na minha lembrança, segredo passado para Janaina e hoje divulgado com a discreção amorosa de quem sabe de tudo.

Transformada em livro, não mudou, pelo contrário rejuvenesceu. Talvez soubesse desde há tanto que um dia estaria entre nós, destino daqueles que têm a esperança como condão.

Quase que num só olhar, graças à mágica das letras, soube de sua vida e de suas dores, advinhei suas alegrias secretas, vivenciei sua auto-estima mesmo quando foi morar num país sem nome nem endereço. Muitas páginas, muitas horas e muita emoção numa tarde de domingo, junto à janela aberta e muita claridade ao redor de nós.

Sua poesia é para ser lida paulatinamente. Um monte de grãos sobre a mesa a serem não escolhidos mas separados e colocados adiante seguidamente, juntos mas separados como a liberdade que ela tanto amou.

Jana querida, estou escolhendo um bom lugar na minha estante para oferecer à sua mãe. Uma coisa eu lhe garanto, ela vai gostar porque vai ficar muito bem acompanhada, seus amigos já as estão esperando e são muitos. Um beijo, nas entrelinhas aos montes, minhas melhores lembranças e todo o meu carinho.
                                                               Thereza Araújo
 

27.11.11

Rubens Jardim escreve sobre Jacinta Passos e Orides Fontela























O grande poeta Rubens Jardim, em seu site, escreveu sobre as trajetórias de vida e a poesia de Jacinta Passos e Orides Fontela. O texto aponta aproximações entre as duas escritoras, apesar das diferenças de época e estilos poéticos entre elas: tanto Jacinta quanto Orides foram poetas inspiradas, libertárias, corajosas, independentes, que viveram existências difíceis e enfrentaram estigmas, entre eles o da loucura, sendo até há pouco tempo completamente esquecidas, e hoje ainda procurando um espaço. O texto de Rubens, abaixo reproduzido graças à generosidade do autor, integra a excelente série que o poeta vem postando na internet, "As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira".

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (12)

Rubens Jardim

Apesar das grandes dificuldades que cercaram a vida destas duas poetas libertárias, Jacinta Passos e Orides Fontela não cederam um milímetro em suas convicções. Ambas enfrentaram, em circunstâncias e tempos diversos, preconceitos e estigmas. E seus embates foram duríssimos.Só que as duas fizeram poesia de alta voltagem, sem frouxidão e derramamentos emocionais. E mereceram a atenção e o aplauso de nomes como Antonio Cândido, Sergio Milliet, José Mindlin e Maria Helena Chauí. Infelizmente, as duas morreram pobres e incompreendidas --em sanatórios. E só recentemente suas obras voltaram a ser publicadas. Presto aqui uma homenagem a elas, alterando o parâmetro da série de 4 poetas por cada postagem. O talento de Jacinta e Orides merece esta modificação --e este destaque. E eu quero contribuir com o resgate dessa poesia alheia a correntes e modismos.

JACINTA PASSOS(1914-1973) – poeta baiana, professora, jornalista, militante política e feminista, nasceu em família rural abastada da região de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Foi católica fervorosa e se transformou em comunista ardorosa, nas palavras da filha, Janaína Amado. Publicou 4 livros: Nossos Poemas(1941), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958),longo poema sobre a Coluna Prestes, empreendida na década de 1920,que buscava mudanças políticas para o Brasil.

Todos os livros de Jacinta tiveram edições pequenas, e estão esgotados há muito tempo. Canção de Partida, por exemplo, teve tiragem de apenas 200 exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados por Lasar Segall. E embora tenha despertado interesse e atenção de nomes tão importantes como Mário de Andrade, Antonio Candido, Sérgio Milliet e Roger Bastide, a poesia vigorosa e libertária dessa poeta acabou caindo no esquecimento. Eu mesmo, que circulo nesse universo da poesia há mais de 40 anos, só muito recentemente tive acesso ao seu trabalho --e à sua trajetória marcada por tantos conflitos e dificuldades.

Mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, Jacinta Passos abandonou a formação religiosa, comum na época, e passou a lutar, a partir do início da Segunda Guerra Mundial pela paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas--conforme destaca Eliane F.C.Lima, em seu blogue.

Mas bem antes disso, quando tinha uns 18 anos, o catolicismo convencional de Jacinta já começou a migrar para o catolicismo social. Aquele que provocou e ainda provoca polêmicas e dissenções. Exemplar é o caso da Teologia da Libertação, tão influente na América Latina,e que acabou levando um de seus mais renomados integrantes, Frei Leonardo Boff, a ser julgado pelos tribunais do Vaticano.O viés desse catolicismo social, formulado pela encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, procurou oxigenar e aproximar a igreja católica de uma nova realidade, desenvolvendo noções como a de bem comum (os bens comuns seriam de responsabilidade de toda a sociedade) e a de destinação universal dos bens (os bens deveriam ser divididos com igualdade entre os homens)

Segundo sua filha, Janaína Amado, responsável pela publicação do livro Jacinta Passos, Coração Militante (2010), sua mãe vivenciou paixões intensas: por homens que a amaram, pela filha da qual foi afastada e pelo partidão onde permaneceu 30 anos na experiência clandestina. O calvário de Jacinta Passos começou em 1951, quando ela passou a sofrer crises nervosas e delírios persecutórios. Diagnosticada como esquizofrênica , vivenciou a violência extrema de diversos internamentos em sanatórios, tratada a eletrochoques, injeções de insulina e isolamento severo.

“Mas jamais deixou de escrever. Em Aracaju, por volta de 1962, foi morar sozinha em um povoado de pescadores. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, mas possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia.”

Janaína conta, ainda, que mesmo após o golpe militar de 1964, Jacinta Passos não abandonou a intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores.”Em 1965 foi detida quando pichava muros da cidade com palavras de ordem contrárias à ditadura. Foi recolhida ao 28º BC de Aracaju e depois transferida para a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até morrer, aos 57 anos, no dia 28 de fevereiro de 1973.” O livro Jacinta Passos, Coração militante, lançamento conjunto das Editoras Corrupio e Edufba em junho de 2010, reúne todo o material encontrado a respeito de Jacinta Passos. Contém ainda poemas esparsos, originalmente publicados em jornais e revistas, jamais reunidos em livro.E uma bela biografia que mostra a trajetória singular da poeta, bem como sua fidelidade às idéias e valores que a levaram a chocar-se contra tudo e contra todos— na contramão do tempo.

Canção do amor livre

Se me quiseres amarCantigas das mães
não despe somente a roupa.

Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

(para minha mãe)

Fruto quando amadurece
cai das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.

Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
por cinco multiplicaram
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Foram viver seus destinos,
sempre, sempre foi assim.
Filhos juntinhos de mim,
Berço, riso, coisas puras,
briga, estudos, travessuras,
tudo isso já passou.
Não foi a morte, não foi,
oi!
foi a vida que roubou.

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?

– Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo
aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.
Muita cidade madura
e muito livro da lei.

Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –
Tanta dor de solidão.
Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.

Fruto peco.

Novembro de sangue e de heróis.

Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.

Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.


Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia.
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

ORIDES FONTELA (1940-1998) - poeta paulista de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. De família muito pobre, seu pai era operário analfabeto, viveu sempre em dificuldades financeiras. Aos 27 anos, depois de cursar a escola normal na terra natal, veio morar em São Paulo e realizar dois sonhos: entrar na USP e publicar um livro.

Fez filosofia, exerceu o magistério e trabalhou como bibliotecária na rede estadual de ensino.

Desde o primeiro livro, Transposição(1969), o discurso apurado de Orides Fontela está marcado pela contenção e pela economia verbal. Aliás, essa característica foi destacada por todos os críticos que se ocuparam de seus livros. Alguns apontaram, nessa marca personalíssima, reverberações da poesia descarnada de João Cabral. Outros, falaram da impessoalidade, da busca pela palavra exata e o culto a um silêncio esfíngico. O certo mesmo é que seus poemas são despidos de tudo o que pode ser considerado acessório e dispensável em poesia. A produção de Orides encontra-se publicada em seis obras, todas de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo (1969-1988, reunião de todas as outras obras) e Teia (1996). A única obra em prosa foi Almirantado, publicada no número 4 do caderno Almanaque de literatura e ensaio (1977). Segundo o poeta Donizete Galvão “ela reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas.” E a comprovação desse seu temperamento explosivo são essas palavras pinçadas pela poeta Nydia Bonetti:“Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero... Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. (...) Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda hoje é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. (...) Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não freqüento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpo.”

Tão verdadeira e por isso tão poética, Orides Fontela recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, com Alba , e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, com Teia . Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João. Era uma pessoa irritadiça e muitas vezes se meteu em encrencas, brigando com seus melhores amigos. Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 4 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar, na Fundação Sanatório São Paulo.Em 2006, parte da obra de Orides --"Transposição", "Helianto, "Alba", "Rosácea" e "Teia"-- foi compilada em um exemplar pela Cosac Naify, POESIA REUNIDA com bibliografia ampla e atualizada.

o espelho dissolve
o tempo o espelho aprofunda
o enigma o espelho devora
a face

AXIOMA

Sempre é melhor
               saber
               que não saber.
             
               Sempre é melhor
               sofrer
              que não sofrer
             
              Sempre é melhor
              desfazer
             que tecer

FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade)

TEIA

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:

no
centro
a aranha espera.

AS SEREIAS

Atraídas e traídas
atraímos e traímos

Nossa tarefa: fecundar
                      atraindo
nossa tarefa: ultrapassar
                      traindo
o acontecer puro
que nos vive

Nosso crime: a palavra.
Nossa função: seduzir mundos.

Deixando a água original
cantamos
sufocando
o espelho
do silêncio

DESTRUIÇÃO

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade da análise.
O cruel saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação da forma,
recriando-a em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade da luz
que se consome
desintegrando a essência
inutilmente. 

19.11.11

Canção atual: Jacinta Passos, uma novantiga poeta



Ela vivenciou a Bahia do início do século XX, imersa na experiência longa e recente da escravidão: senhores e senhoras, os brancos baianos, alicerçados em terras, religião, racismo e alianças políticas, mandavam, enquanto o povo humilde, analfabeto, negro ou mulato obedecia sem remuneração, ao som de suas danças afro-brasileiras e suas revoltas.

Ela vivenciou a Salvador dos anos 1930 e início dos 40, quando a pequena e provinciana cidade da Bahia despertava para os debates literários que rompiam com a tradição parnasiana, para o movimento das esquerdas e das agitações estudantis, as passeatas exigindo nas ruas o fim da Segunda Guerra e das ditaduras, na Europa e no Brasil.

Ela vivenciou a pequena porém agitada São Paulo de meados dos anos 40, quando os intelectuais se uniram para fundar a Associação Brasileira de Escritores e contribuíram para a restauração da democracia no país, quando o Partido Comunista do Brasil foi pela primeira vez legalizado, elegendo Luiz Carlos Prestes e outros para comporem a Assembléia Nacional Constituinte, na democracia.

Ela vivenciou a fervilhante capital da República do inicio dos anos 50, o Rio de Janeiro onde tudo acontecia, da vida noturna trepidante ao vigor dos debates intelectuais e das decisões políticas fundamentais, o centro da vida do país.

Ela vivenciou paixões intensas, por homens que a amaram e alguns a abandonaram. Vivenciou a maternidade, gerando uma filha da qual foi afastada. Vivenciou durante três décadas a experiência ilegal, clandestina e estigmatizadora de militante do Partido Comunista, tendo sido presa. E, a partir de 1951, vivenciou a violência extrema dos diversos internamentos em sanatórios, tratada a eletrochoques, injeções de insulina e isolamento severo, vindo a morrer quando internada.

Todas essas vivências, ela expressou no jornalismo — foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia na década de 1940 — e, sobretudo, na poesia. Rabiscando poemas desde muito jovem, publicou em vida quatro livros de poesia elogiados pelos maiores críticos e intelectuais da época (Aníbal Machado, Gabriela Mistral, Oswald de Andrade, José Paulo Paes, José Mindlin, Antonio Cândido...), e escreveu literatura, em poesia e prosa, durante toda a vida, inclusive quando interna, até a véspera de sua morte.

Estamos falando de Jacinta Passos (1914-1973), poeta, escritora, intelectual e jornalista nascida de família rural abastada em Cruz das Almas, Recôncavo da Bahia, católica fervorosa que se transformou em comunista ardorosa, mulher de hábitos livres num Brasil machista, casada em 1944 com o jornalista e escritor James Amado (irmão de Jorge Amado) e, a partir de 1951, diagnosticada como esquizofrênica paranóide, separada e sozinha, vindo a falecer como louca em um sanatório de Aracaju.

As trajetórias literária e humana de Jacinta Passos ficaram esquecidas nas décadas seguintes à sua morte, pois as pequenas tiragens de seus livros estavam esgotadas, pouco se sabendo sobre sua existência atribulada. Recentemente, a poeta voltou a ser alvo de interesse, com a publicação de uma primeira biografia (Dalila Machado, A história esquecida de Jacinta Passos. Salvador, 2000), de um livro de ensaios (Gilfrancisco, Jacinta Passos: a Busca da Poesia. Aracaju, 2007), de uma monografia de Especialização (Danielle Fuad, Passagem de Jacinta Passos pelo Jornal “O Imparcial” (1943). Salvador, 2008), e de Jacinta Passos, coração militante (Salvador, Edufba/Corrupio, 2010), volume organizado por sua filha Janaína Amado, que reúne toda a poesia e a prosa, inclusive a inédita, de Jacinta, uma nova biografia, sua fortuna crítica, diversas fotografias — que revelam uma belíssima mulher — , além de ensaios de escritores e críticos produzidos especialmente para a edição. Foi criado ainda o site http://jacintapassos.com.br.

A poesia de Jacinta Passos, que apenas começa a ser desvendada, é lírica e política, as duas vertentes muitas vezes se mesclando. Seu primeiro livro, Momentos de poesia, de 1942, revela a profunda experiência mística da autora: Senhor,/eu quis fazer de minha vida/meu mais belo poema em teu louvor. Ou:Ouço vozes estranhas/[...]São vozes de sofrimento, de amarguras,/vozes de todas as criaturas/que falam por minha voz./Todas as criaturas que sofreram/ esta ânsia indefinida/ – angústia milenária como a vida –/ de querer atingir o inatingível (O Mar).

A experiência avassaladora do amor está presente desde o primeiro livro: Existimos fundidos num ser único/ que ignora a sucessão no tempo, [...] como um astro sem memória perdido no espaço sem princípio e sem fim (O Momento eterno). Nos segundo e terceiro livros, Canção da partida, de 1945, e Poemas políticos, de 1951, o amor desabrocha em erotismo: Agora teu corpo é fruto./Peixe e pássaro, cabelos de fogo e cobre./ Madeira e água deslizante, fuga/ ai rija/ cintura de potro bravo (Canção do amor livre).

Dois outros temas são caros à poesia de Jacinta Passos: a política e a situação da mulher, o segundo contido no primeiro. Seu último livro, A Coluna, de 1958, é um longo poema épico sobre a Coluna Prestes. Mas raramente Jacinta foi panfletária. Seus versos transformaram política em boa poesia, como em “1935”, sobre a fracassada revolta comunista deste ano, que assim começa: Tenso como rede de nervos/pressentindo ah! Novembro/ de esperança e precipício./Fruto peco. É sobretudo a mulher pobre, duplamente oprimida, a protagonista de vários versos de Jacinta: Nós somos gente marcada/– ferro em brasa em boi zebu –/ninguém precisa dizer:/ Bernadete, quem és tu? (Canção da partida). E: [...] Mulher virgem, condição/para homem dar – nobre gesto –/ resto duma divisão/ se a divisão deixou resto./[...] A flor caída no rio/que a leva para onde quer,/sabia disso e caiu,/seu destino é ser mulher (Canção simples).

Mas talvez seja a evocação da infância “o princípio organizador da obra de Jacinta Passos”, como concluiu o poeta Fernando Paixão. Em seus poemas líricos que evocam a cultura popular de sua Cruz das Almas natal, Jacinta “se apropriou do espírito narrativo do povo e o devolveu crescido e com roupagem nova”, explicou o escritor e crítico Ildásio Tavares. E Jacinta sai cantando: Boi da cara preta não não meu boizinho,/ não pegue neném, não, ele é meu filhinho (Cantiga de ninar). Ou: Camilo, você é pobre/e nunca foi senador,/mas por que é igualzinho/ao retrato de vovô? Ou ainda: Tanta laranja madura/ai tanta!/que aroma vem do quintal./A maré já deu passagem/cresce meu canavial/minha vara de condão/cavaleiro, teu punhal./ Jasmim da noite floriu./ Jasmim./Acabou-se o bem e o mal./Já tirei os meus sapatos,/Vesti meu manto real (Chamado de amor).

Janaína Amado
(Publicado originalmente em Sidarta - jornal de artes e personagens, editado por Sônia Coutinho nº 12.)

*Imagem - foto de Jacinta publicada em Momentos de Poesia, de 1942. 

26.7.11

Guerreiro Ramos escreveu sobre Jacinta Passos



O pesquisador e professor Gilfrancisco Santos, baiano radicado em Aracaju, Sergipe, autor, entre outros, de Jacinta Passos: a busca da poesia (Aracaju: Coleção GFS, 2007), localizou o texto abaixo, de 1940, escrito pelo sociólogo Alberto Guerreiro Ramos sobre a poesia de Jacinta Passos. Este texto vem acrescentar-se aos da “Fortuna Crítica” inserida no livro Jacinta Passos, Coração Militante, de Janaína Amado. Agradecemos muito ao prof. Gilfrancisco pela generosidade em disponibilizar o resultado de sua pesquisa.

Esta resenha crítica de Guerreiro Ramos refere-se à primeira fase poética de Jacinta, que corresponde aos poemas religiosos e intimistas publicados em seu primeiro livro, Momentos de poesia, de 1942. Mais tarde, Jacinta abandonaria a religião e assumiria uma poesia militante, preocupada com a transformação do mundo real, posição que transpareceu já em seu segundo livro, Canção da partida, de 1945.

Esta resenha  pertence também à fase inicial do pensamento de Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982), quando, ainda radicado na Bahia, praticava sobretudo o jornalismo e a crítica literária, ambos dentro do escopo católico, bastante diverso do da sociologia e da política que mais tarde, radicado no Rio de Janeiro e nos EUA, passaria a praticar, tornando-se um dos mais proeminentes sociólogos e pensadores brasileiros do seu tempo.

Esta resenha foi originalmente publicada na revista Cadernos da hora presente, de São Paulo, que circulou de maio de 1939 a agosto de 1940, sob a direção de Tasso da Silveira. A revista tinha como objetivos publicar textos de intelectuais importantes (brasileiros e estrangeiros) e de fazer propaganda das idéias integralistas. Segundo Alberto da Costa e Silva (Revista de História da Biblioteca Nacional, Outubro de 2010, p. 31), nos números da Cadernos da hora presente “colaboraram não só integralistas e escritores que deles estiveram próximos em algum momento [...], mas também autores que não os acompanhavam em suas ideias políticas, como Abgar Renault, Alphonsus de Guimarães Filho, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Orígenes Lessa.” Jacinta Passos, que foi católica mas nunca integralista, pertenceu a este último grupo de autores.


Jacinta Passos

“Jacinta Passos é uma personalidade forte. É uma vocação real de poeta. Sua poesia é uma poesia de salvação, de diálogo com Deus.

Jacinta Passos é da família espiritual dos contemplativos. Alma predestinada, não conheceu as tremendas realidades, a atração dos abismos. Sua poesia é um diálogo, entre sua alma e Deus. Sem dúvida, é luta. Mas luta onde não há ranger de dentes, onde não há dilaceramentos de entranhas. Há, nela, apenas, um laivo de nostalgia do paraíso perdido, do estado cerúleo. Não há dessas descontinuidades trágicas e sangrentas que encontramos nos dolorosos, em um S. Agostinho.

Jacinta Passos é inimiga do feio e do baixo. Por temperamento, ela tem a droiture de l´esprit. Seu espírito é direito. É desses temperamentos que não podem estar no meio termo. Ou são santos ou demônios. O aspecto noturno da existência a estarrece. Não gosta da noite que confunde os contornos e os imprecisa e os dilui. Tudo, nela, é claro, como uma paisagem dos trópicos. E sua experiência de Deus é, se se pode falar assim, uma experiência intelectual. Seus problemas inquietantes são os problemas da fé, de aceitar ou recusar Deus. Uma vez imersa na contemplação, aí fica e permanece, em absoluto abandono. Não precisa do conforto humano. Ao contrário, sua paixão arroja-a nos braços do Consolador Invisível. Poesia teológica, esta. Poesia absolutamente em Jesus.

Não é na terra que espera o complemento de sua imagem. Sua poesia está despida de toda nostalgia do amor puramente humano. Ela tem o gosto da solidão, de se bastar a si mesma com Deus.

Tais temperamentos não deixam de ser trágicos. Neles é que se processam as lutas mais terríveis porque, constantemente, estão entre os extremos: Deus e o Diabo. São altivos, eis o termo. Esta altivez, porém, não está livre do perigo de tornar-se um orgulho espiritual, pior do que o da carne. Daí o terrível drama ontológico das almas deste quilate.

Há — diz Newman — duas sortes de santos: a dos que se perdem completamente na vida divina e que, malgrado sua carne e seu sangue, não têm nenhum contato com a natureza humana, e a dos que, mesmo santos, não ficam, por isso, menos homens, mas compreendem o coração humano, podem aproximar-se da alma dos outros e, ao mesmo tempo em que são firmes no caminho da castidade e da paz, podem, com a imaginação, seguir os múltiplos caminhos da paixão e da vingança...

Jacinta Passos é da linhagem dos primeiros.

Jacinta Passos é uma alma difícil. Dir-se-ia claudeliana. Um espírito duro como um penhasco e, ao mesmo tempo, para falar ao gosto de Maritain, um coração doce, efetivamente, mas uma doçura sui-generis, totalmente dirigida para o sobrenatural. O mundo a “desencanta”. Aquele gosto de isolar-se, de solidão com o Cristo é uma forma do “horror à realidade dura e fria”, aos “atritos ásperos da vida”.

No exterior, só as coisas simples a comovem: um crepúsculo na manhã de sol, a música do mar...

Espírito aristocrata e nobre, o seu olhar se dirige reto para a Divina Face, em cuja contemplação se abisma e se abraça...

Os poemas que vão ser lidos apresentam Jacintas Passos como um valor autêntico da poesia brasileira.”

Guerreiro Ramos



(in: revista Cadernos da Hora Presente, São Paulo, 1940, série I, pgs. 149-150. Segue-se uma “Antologia” de Jacinta Passos, até a pg. 155, contendo os seguintes poemas, reunidos em 1942 no seu livro Momentos de poesia: “Manhã de Sol”, “Contrição”, “Consagração”, “Comunhão”, “Maria”, “Vida morta” e “Agonia do horto” )

* Imagem: o jovem Guerreiro Ramos, em idade próxima à que tinha quando escreveu a resenha crítica sobre os primeiros poemas de Jacinta Passos.

5.7.11

Lina Arao escreve sobre Jacinta Passos

Acaba de ser lançado um livro, coordenado pela escritora e professora Helena Parente Cunha, contendo ensaios acadêmicos sobre a produção de poetas mulheres:

CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra e Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011.

Um dos ensaios deste livro trabalha a produção poética de três escritoras, entre elas Jacinta Passos. A obra de Jacinta começa, assim, a ser revisitada por estudiosos e acadêmicos, ganhando novas interpretações, olhares, intertextualidades:

ARAO, Lina. Mulher em três tempos: Luiza Amélia de Queiroz Nunes, Jacinta Passos e Marize Castro. In:   CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos, pp. 226 a 263.

31.1.11

Regina Dalcastagnè escreve sobre "Jacinta Passos, coração militante"



(Publicado no Suplemento “Prosa & Verso”, jornal O Globo, Rio de Janeiro, sábado, 29/01/2011)

Relato afetivo de um drama político e familiar

Trazer a público a trajetória e a obra de uma intelectual brasileira ligada ao Partido Comunista em meados do século passado, e esquecida hoje, não deveria ser problema para uma pesquisadora experiente no ramo, com vários livros de História publicados. Mas quando o objeto de estudo é a própria mãe, que não a criou e que passou longos anos de sua vida em clínicas psiquiátricas e sanatórios, o assunto se torna, no mínimo, delicado. E é assim, com extrema delicadeza e cuidado, que Janaína Amado reconstrói os passos de sua mãe, resgatando seus poemas, palestras, artigos de jornais, no belo Jacinta Passos: coração militante.

Num interessante jogo de distanciamento histórico e proximidade afetiva (ou vice-versa), Amado consegue montar um retrato vívido de uma mulher que enfrentou a família (de proeminentes fazendeiros e políticos baianos), a sociedade (que viu a jovem professora católica se transformar em uma ardente jornalista, abandonar a religião e se casar com um rapaz muito mais jovem) e o regime (primeiro o de Vargas e depois o dos generais de 1964). Uma mulher que lutou sem parar pelas ideias em que acreditava, que tomou as rédeas de sua própria vida e que perdeu muitas batalhas, mas que foi derrotada pela esquizofrenia – e por tudo o que significava, e continua significando, um diagnóstico como esse.

Recuperar essa história significa remar contra décadas de silêncio, da família, do mercado editorial, mas também do círculo político e intelectual que a acolheu e depois a excluiu, de diferentes maneiras. Jacinta era casada com James Amado, irmão de Jorge, e conviveu com os principais escritores e artistas de esquerda da época, especialmente em São Paulo. Foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia, com posições firmes sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a necessidade de organização das mulheres e o papel dos intelectuais na política brasileira. Chegou a ser candidata a deputada federal constituinte pelo PCB em 1945 e a deputada estadual em 1947.

Em 1951 ela estava morando no Rio de Janeiro com o marido quando, após um surto, é internada pela primeira vez (aos 37 anos), começando um tratamento à base de eletrochoques, insulina e barbitúricos. Suas crises e alucinações estavam sempre relacionadas com perseguições políticas, “expressavam cercos, agressões, torturas e assassinatos praticados pela repressão”. Jacinta foi presa duas vezes, fazendo discursos nas ruas e pichando muros, mas era liberada com a alegação da família de que tinha problemas mentais. Em 1953 seu casamento acaba e ela volta para Salvador em 1955 – sem marido e com o estigma do internamento, ela perde também seu espaço na vida política e intelectual da cidade.

A sua situação se agrava em 1958, quando ela exige a guarda da filha. Para evitar ir aos tribunais, o ex-marido pede a Carlos Marighela, dirigente do PCB e amigo do casal, que lhe diga que o partido decidiu mandar a menina à União Soviética, para estudar. Essa falsa viagem marca uma separação de 12 anos com Janaína que, quando decide finalmente revê-la, ainda no sanatório, não é reconhecida por ela como sua filha. Jacinta morre em 1973, internada, aos 57 anos de idade.

Jacinta Passos: coração militante traz a íntegra de sua poesia (os quatro livros lançados entre entre 1942 e 1958, todos em pequenas tiragens, apenas um dos quais reeditado, mas também seus poemas esparsos, nunca antes publicados em livro), seus artigos de jornal e textos em prosa e verso escritos nos últimos anos de sua vida (havia ainda sete livros inéditos e uma série de manuscritos, mas eles foram queimados pela irmã e pela mãe, temerosas por seu conteúdo revolucionário). Reúne a fortuna crítica sobre ela, incluindo artigos de Mário de Andrade e Antonio Candido, e traz um conjunto de estudos inéditos sobre sua obra. Há também belas fotos da poeta e sua família, além dos desenhos que Lasar Segall fez especialmente para o segundo livro de Jacinta, Canção de partida, publicado em 1945.

Mas talvez o mais importante da obra seja justamente a biografia escrita por Janaína Amado – um trabalho meticuloso, feito a partir de pesquisa e entrevistas com as pessoas que conviveram com Jacinta, incluindo suas próprias memórias de menina, quase sempre desconfortável, quando não assustada, diante da mãe exigente, com quem se encontrava nas férias e nas raras visitas ao sanatório. É a biografia que nos permite valorizar a obra de Jacinta Passos, reintroduzi-la na história da imprensa, da política e da literatura brasileira, fornecendo novas possibilidades de leituras sobre esse período da história cultural do país.

O livro não deixa de ser uma homenagem a essa intelectual, mas é também uma forma de dizer que a mãe não foi renegada, nem esquecida. Marca, ainda, a necessidade de lembrarmos daquelas que vieram antes de nós e que abriram os caminhos para a independência das mulheres, mesmo que com um alto custo para si próprias.

Regina Dalcastagnè
(Professora de literatura da UnB e pesquisadora do CNPq)

Janaína Amado (org.) – Jacinta Passos: coração militante (poesia, prosa, biografia, fortuna crítica). Salvador: EDUFBA/Corrupio, 2010, 574 páginas.

[*Imagem: foto de Jacinta e Janaína, Rio de Janeiro, 1951; arquivo particular de Janaína Amado)

10.10.10

Eliane F.C. Lima escreve sobre Jacinta Passos


"A poeta sobre a qual comentarei hoje, Jacinta Passos (Recôncavo baiano - 1914-1973), era uma mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, pois já a partir de 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, apesar de haver recebido forte formação religiosa, comum na época, começou a ter intensa militância política, lutando por questões relevantes sociais, como a paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas, de uma forma geral. Um de seus textos mostra, poeticamente, esse mundo interior que possuía.

Canção da liberdade

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver.

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

(trecho do poema in Canção da partida)

Professora por formação, no novo caminho que escolhera, acaba se relacionando com intelectuais comunistas, como o escritor Jorge Amado, com cujo irmão, James Amado, se casaria mais tarde. Sua filha Janaína Amado é fruto desse casamento.
Em 1945, já está oficialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro, onde permanece até morrer.
Muda-se depois – 1951 –, com sua nova família para São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro.
No final desse mesmo ano, um fato marca sua vida e a separa do marido e da filha: após crise nervosa e de se ver internada em clínica psiquiátrica, recebe o diagnóstico de esquizofrenia, tendo seu tratamento, compatível com o que se acreditava na ocasião, lhe proporcionado grande sofrimento.
Voltando para Salvador, só, embora mantenha relacionando ocasional com a filha, vai residir com os pais, mas continua sua atuação política e social em comunidades pobres, como em uma colônia de pescadores de Aracaju, onde vivia ela mesma em extrema pobreza.
Continua sua atuação mesmo após o golpe militar de 1964, o que lhe vale, em 1965, a prisão, quando escrevia em muros da cidade sua revolta à ditadura. Sua família interfere, alegando seu problema psiquiátrico, e Jacinta é internada numa casa de saúde da cidade, onde fica até sua morte – 1973 –, com apenas cinquenta e oito anos de idade.
Apesar de ter sua vida ligada à de Jorge Amado, não é por esse motivo que se torna poeta, é bom que se deixe claro, pois seu primeiro livro de poesias, Nossos poemas, já sai em 1942, dividido em duas partes: “Monumentos de poesia”, com poemas de Jacinta; “Mundo em agonia”, com poemas de Manoel Caetano Filho, seu irmão. O livro já foi recebido com críticas favoráveis aos dois na imprensa baiana.

Obras
Poemas
Nossos poemas (1942 – Salvador: Editora Bahiana)
Canção da Partida (1945 – São Paulo: Edições Gaveta – edição de apenas duzentos exemplares, assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall, tendo recebido elogios de nomes nacionais como Aníbal Machado, Antonio Cândido, Mário de Andrade, dentre outros).
Poemas políticos (1951 - Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil - poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores).
A Coluna (1957 - Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes).

Em 2010, sua filha Janaína Amado, escritora e historiadora, organiza o livro Jacinta Passos, coração militante, lançado, em conjunto, pelas editoras Edufba (da Universidade Federal) e pela Corrupio, reunião da obra completa da escritora, com artigos jornalísticos e inéditos, além da fortuna crítica. Os desenhos de Lasar Segall, do livro Canção da partida, são trazidos de volta. A admiração da filha por Jacinta fica bem patente, não só pela obra publicada, fazendo ressurgir toda a produção da mãe, mas por dois espaços (aqui e aqui– site oficial) na internet a ela dedicados e aos quais agradeço. Foi do primeiro link que partiu a facilitação de minha pesquisa, encaminhada aos diversos outros sites onde se informou sobre a poeta e aos quais estendo meu agradecimento. No segundo, pode-se visitar poemas e prosa da escritora.

Escrevendo Jacinta Passos, em jornais e revistas, um de seus temas, como foi dito, era a denúncia da opressão sofrida pelas mulheres, o que se refletiu até em seus poemas, como os abaixo:

Canção Simples

A flor caída no rio
que a leva para onde quer
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

Mulher que tudo já deu
homem que tudo tomou,
é mulher que se perdeu,
é homem que conquistou.

(Canção da Partida)

Chiquinha

Chiquinha
Chiquinha
tão frágil,
magrinha.
Teu corpo miúdo,
O tempo secou,
As formas redondas,
o tempo gastou.

(...)

Teu corpo cansado
lutou no Egito
as mãos, mãos escravas,
abanaram leques
e teu corpo nu,
teus seios morenos
e teus pés pequenos
dançaram lascivos,
ligeiros, airosos,
deleitando o tédio
de reis ociosos.

Chiquinha,
teu corpo cansado,
foi corpo explorado
na Mesopotâmia,
na Pérsia e Turquia
- haréns de sultão –
foi pária na Índia,
na China e Japão.
Teu corpo explorado
foi mercadoria,
espada e cavalo
e vinho, foi orgia
na Arábia lendária,
de ardência e magia.

(…)

Chiquinha
Chiquinha
durante dez séculos,
teu corpo fechado
nas torres feudais
de imensos castelos
foi corpo arrancado
da terra, da vida,
corpo sem raiz,
feito puro de espirito,
mistério e tabu,
teu corpo adorado
foi corpo explorado.

(Canção da Partida)



Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(...)

- Pelo sinal da pobreza!
- Pelo sinal de mulher!
- Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
- ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

(Canção da partida)

Abaixo coloco alguns de seus textos do livro Poemas políticos, embora eu deva salientar que a poesia vai muito além de uma questão momentânea. Mas quem sou eu para discutir com a autora o título que ela mesma lhe deu.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

(Poemas políticos)

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

(Poemas políticos)

Mas devemos nos deliciar também com os poemas líricos de Jacinta, os quais têm a mesma força dos de cunho libertário. Em uma linguagem simples e direta, como foi a ação em sua vida, sem jogos figurativos muito requintados, atinge em todos a poesia que emociona.

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

(Poemas políticos)

Cantiga de Ninar

Senhora Onda do Mar
vestida de verde com franjas de luar,
ninai meu filhinho fechai seu olhinho
seu soninho velai
que mamãe precisa fazer com papai,
Senhora Onda do Mar,
um planeta novo de neném morar.

Su su su
Quem dorme na lagoa
é sapo-cururu.

(Canção da Partida)

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?
Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

(Canção da Partida)

Fecho a postagem com um poema de Jacinta Passos, que, parecendo antever sua grande ação social e seu final de vida, resume-a, assim, em 1942. Doente e com problemas de saúde, o que ficou da escritora foi mesmo sua essência lírica, o que atravessou o túnel do tempo e a traz de volta. Não é o que se diz dela, dados ligados à história do país, de um “indivíduo”, afinal, o que a marca mais fortemente, mas a força e verdade de um sujeito poético

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras."

Eliane F.C. Lima, publicado em Literatura em vida 2, 10/10/2010

16.9.10

Goulart Gomes seleciona Jacinta Passos entre os 50 melhores livros baianos de todos os tempos

"Para quem deseja conhecer um pouco mais da Literatura produzida por escritores baianos, em todos os tempos, segue uma lista de 50 livros lidos e recomendados, por ordem de autor:


Corpo vivo, Adonias Filho
Luanda, Beira, Bahia, Adonias Filho
O Largo da Palma , Adonias Filho
Bugrinha, Afrânio Peixoto
Jau de bois , Aleilton Fonseca
Um cão uivando para a lua, Antonio Torres
Reportagem urbana , Aramis Ribeiro Costa
A ostra azul, Ariovaldo Matos
Berço Vazio , Artur de Sales
Música do Parnaso, Botelho de Oliveira
Aborigem, Carlos Loria
O visitante noturno , Carlos Ribeiro
Os escravos, Castro Alves
Berro de fogo e outros contos , Cyro de Mattos
Carmina e os Vaqueiros do Pequi, Dênisson Padilha Filho
O bem amado, Dias Gomes
O pagador de promessas, Dias Gomes
Procissão e outros contos , Gláucia Lemos
Crônica do viver baiano seiscentista, Gregório de Matos
Lili Passeata, Guido Guerra
Vento ventania vendaval , Helena Parente Cunha
Contos da noite fechada , Hélio Pólvora
O rei dos surubins, Hélio Pólvora
Cascalho, Herberto Sales
Odes brasileiras, Ildásio Tavares
Coração militante, Jacinta Passos
O telefone dos mortos , João Carlos Teixeira Gomes
Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Capitães de Areia, Jorge Amado
Gabriela cravo e canela, Jorge Amado
Jubiabá, Jorge Amado
Tenda dos Milagres, Jorge Amado
Dona Flor e Seus Dois Maridos, Jorge Amado
Viventes de Água Preta , Jorge Medauar
Inspirações do Claustro, Junqueira Freire
Língua Bailarina, Luciano Passos
Mares nunca dantes, Luís Germano Graal
Calendário, Márcia Tude
O inédito de Kafka , Mayrant Gallo
Femina, Myriam Fraga
O guesa, Pedro Kilkerry
As sombras luminosas, Ruy Espinheira Filho
Canção de Beatriz e outros poemas, Ruy Espinheira Filho
Iararana, Sosígenes Costa
Cação de areia, Vasconcelos Maia
Histórias da gente baiana , Vasconcelos Maia
Algaravia, Waly Salomão
O Reduto, Wilson Lins
A cidade encantada , Xavier Marques

Goulart Gomes
Publicado no Recanto das Letras em 15/09/2010

27.8.10

Revelações sobre Jacinta Passos e sobre a construção do livro


Há uma matéria grande, de autoria da jornalista Elexsandra Morone, sobre Jacinta Passos, sua vida e poesia. Acompanha a matéria entrevista com Janaína Amado sobre o livro recém lançado com a obra completa da poeta, tudo isso publicado na Gazeta de Alagoas. Não deixe de ler, é só clicar no link!

A matéria foi transcrita também neste link

17.8.10

Henrique Marques-Samyn escreve sobre Jacinta Passos




A REVOLUCIONÁRIA ESQUECIDA

Por Henrique Marques-Samyn



Jacinta Passos é um daqueles raros casos em que a trajetória biográfica e a literária despertam igual interesse. É difícil não admirar a história de vida dessa mulher que, para ser fiel a si mesma, ousava desafiar abertamente consensos e preconceitos, assumindo consequências que iam desde a censura familiar e social até a perseguição política. De fato, constam de sua biografia elementos que renderiam uma comovente obra romanesca: louváveis convicções morais (que levaram Jacinta, oriunda de uma tradicional família baiana, a recusar sua herança e a mudar-se para um então paupérrimo povoado sergipano a fim de conscientizar politicamente os pescadores que lá viviam – e que viriam a traí-la); uma assombrosa independência intelectual (que a levou a renunciar ao catolicismo que ardentemente professara até a juventude em prol da militância comunista); um temperamento singular (que a fez desafiar todas as convenções sociais que condenavam a mulher a uma posição submissa, defendendo sua autonomia profissional e sua liberdade sexual); e uma morte trágica, sucumbindo a uma esquizofrenia para a qual não havia um tratamento adequado.

Para além dessa extraordinária trajetória pessoal, Jacinta Passos foi a autora de uma vasta obra literária – dedicou-se principalmente à poesia, mas assinou também contos, minicontos e mesmo uma peça de teatro – e de importantes textos críticos e jornalísticos – que tratam da poesia brasileira nas décadas de 1940 e 1950 e da situação feminina, por exemplo. Seu lugar no cenário intelectual brasileiro pode ser mensurado por sua fortuna crítica, da qual constam textos assinados por nomes como Antonio Cândido, Sérgio Milliet e José Paulo Paes. Levando-se tudo isso em conta, impressiona perceber que Jacinta Passos é, hoje, uma escritora desconhecida, situação em que talvez permanecesse ainda por longos anos, não fosse a publicação deste monumental Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. Organizado por Janaína Amado, filha de Jacinta e professora aposentada da Universidade de Brasília, a obra tem um valor imensurável: com quase seiscentas páginas, o volume reúne toda a obra publicada de Jacinta, incluindo textos literários e jornalísticos, além de manuscritos inéditos; uma valiosa fortuna crítica, incluindo textos produzidos especialmente para a edição; uma biografia, assinada pela organizadora, construída com base em entrevistas e numa ampla documentação; farta iconografia e, finalmente, um amplo levantamento bibliográfico.

A estreia de Jacinta Passos em livro ocorreu em 1942, com a publicação de Nossos poemas, livro dividido em duas partes: a primeira, “Momentos de poesia”, que reunia 38 poemas de Jacinta; e a segunda, intitulada “Mundo em agonia”, que trazia obras assinadas por seu irmão, Manuel Caetano Filho. Obra de uma autora jovem, ainda em busca de uma voz própria, mas indiscutivelmente promissora, mereceu a atenção de destacados nomes da crítica literária baiana daquela época: Carlos Chiacchio qualificou-a como autora “sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma”; Lafaiete Spinola censurou o gosto pela abstração da jovem poetisa, a seu ver artista “senão de momentos grandiosos, pelo menos de delicados painéis”, nela ressalvando “um defeito raro nas mulheres”, a seu ver: o de pensar. Aos olhos contemporâneos, essa parte da produção de Jacinta Passos se revela em grande parte datada, por muito devedora da estética em cujo âmbito foi concebida; não obstante, ali encontramos um poema como “O canto de amanhã”, menos metafísico e mais próximo do tom político em que a poetisa encontraria seu temário principal (“Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens se servem, / entre pedras, ferro, pai, mãe, / ouro, árvores, filhos, irmãos e companheiros, / entre animais, carvão, petróleo, alavancas e máquinas. / Minha cabeça se curve ao peso da fria injustiça organizada e aceite / e receba a piedade como último insulto.”).

Em 1945, surge Canção da partida. Publicado em tiragem de 200 exemplares, numerados e assinados pela autora, a esmerada edição trazia 5 desenhos de Lasar Segall preparados especialmente para a obra. Esses poemas registram uma mudança fundamental no lirismo de Jacinta: é perceptível a renúncia à artificiosa dicção da obra anterior, que culminava numa poesia vaga e totalizante, e a consequente construção de uma poesia que adere ao mundo, incorporando elementos biográficos. Essa guinada não passaria despercebida aos atentos olhos de Antonio Candido, que acusa o afastamento da “austeridade formal” e da “elevação de tom” dos poemas anteriores de Jacinta Passos, revelando sua preferência pelos poemas de metro curto, nos quais a autora “revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica”. O melhor do livro, a meu ver, são justamente os poemas em que se estabelece a síntese entre a dicção mais concreta e menos dilatada e aquele impulso para o universal, matizado por uma inabalável esperança política, essa já presente na obra anterior; disso resultam excelentes poemas como “Navio de imigrantes” (“Arca ou navio, / nau ou galera, / vens doutra era, / séculos a fio. // Qual o teu rumo? // Levas o sumo / da dor humana / que se supera, / vida ou quimera.”) e “Sangue negro” (“Terras curvas do Recôncavo / onde adormece o oceano, / de tuas veias abertas / escorre / o petróleo baiano, / sangue negro do Brasil.”).

Os dois últimos livros de Jacinta demonstram o amadurecimento de tendências já presentes em Canção da partida. Poemas políticos, de 1951, é o raro registro de uma poesia fortemente engajada e marcadamente histórica que, no entanto, preserva sua força estética, como lemos em “O rio” ou “O enforcado” (“Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes? / o quinto do ouro, a família real, e o vinte e um de abril? / Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo / no turvo. O demônio da guerra / nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: — Não podemos parar.”); traz o livro também “Canções líricas”, entre elas a extraordinária “Canção atual” (“Quanto deus caiu do céu / tanto riso neste chão, / fala de servo calado / pisado / soluço de multidão”.). A Coluna, de 1975, é um pujante épico que, em 15 cantos, resgata a Coluna Prestes — admirável tour de force que coroa a obra de Jacinta Passos, revelando uma autora de pleno domínio formal, dotada de uma singular competência para traduzir o ideário político em imagens poéticas, esquivando-se aos riscos do panfletarismo; transcrever fragmentos da obra resultaria na fragmentação de um discurso poético que prima por sua consistência e unidade, razão pela qual não isso não será feito aqui.
Resgatada do esquecimento, a poesia de Jacinta Passos vem recebendo estudos que reavaliam um conjunto de parâmetros críticos que, por longo tempo, ensejaram o seu reconhecimento como obra menor; exemplo disso são as pioneiras avaliações de Carlos Chiacchio, Lafaiete Spinola e Sérgio Milliet, que ainda a leram como expressão de um essencializado “lirismo feminino” (a expressão é de Chiacchio; Milliet louvou em Jacinta o fato de ela não “se esquecer” de que é mulher, ao passo que Spinola, como anteriormente mencionado, nela censurou o “defeito” de pensar, que considerava “raro” nas mulheres). O volume organizado por Janaína Amado traz uma amostra dos novos estudos dedicados à obra da autora baiana, que tendem a repensar o seu lugar na história da poesia brasileira; esse, no entanto, é um trabalho que apenas se inicia. É chegada, enfim, a hora de reler Jacinta Passos.

(Texto publicado na revista on-line Speculum, em 21/08/2010; versão resumida do texto foi publicado pelo autor no Jornal do Brasil, on-line e impresso, sob o título "O Consenso às avessas", em 11/08/2010).

12.8.10

Resenha de Luis Flávio Godinho sobre "Coração Militante"


Li a obra Jacinta Passos - Coração Militante, organizada pela historiadora Janaína Amado (1) com o mesmo afinco com que na adolescência e fase precoce da vida adulta,li Feliz Ano Velho, há 25 anos, e Olga Benário há duas décadas, respectivamente. Obras de apelo popular, ambas retratadas no cinema, mas que possuem a mesma temática do sofrimento familiar, dos acidentes de percurso e sofrimento subjetivo em contextos políticos híbridos: despótico-democráticos!

E digo! Em dramaticidade, a vida desta mulher guerreira, incompreendida pelo sistema social, nada fica a dever.

Li, em um único dia, todos os textos escritos pela autora Janaína Amado. O ponto alto é o texto biográfico-histórico que impressiona por demonstrar a construção da objetividade frente à história, visto que a organizadora é filha de Jacinta Passos, tendo sido apartada de seu convívio desde a tenra adolescência bem como tendo tido uma relação complexa com sua genitora. Acredito que Amado conseguiu, nesta obra, o que Geertz denomina “Tratar o familiar como exótico", no que diz respeito à abordagem historiográfica e aos dados tão subjetivos de que tratou.

Dentre as principais considerações, enumero, por exemplo, a constatação de que Jacinta Passos foi uma mulher muito à frente de seu tempo, os anos de ouro do capitalismo, chamado no Brasil de Anos Dourados, entre 50 e 70.

Esta poetisa viveu muitas identidades: professora de matemática, militante católica, intelectual do PCB, jornalista literária, filha de família de elite de Cruz das Almas, Bahia, a família Passos (2); Jacinta foi jornalista militante do catolicismo social e do PCB, em fases distintas de sua vida, assim como desenvolveu atividade de poetisa, jornalista ligada às artes, analista literária e mãe.

Sua obra foi abordada por Chiacchio, Cândido, Lasar Segall, dentre outros ícones da crítica literária nacional e/ou das artes.

Tomo por hipótese que Jacinta Passos foi a Leila Diniz de seu tempo, já que desafiou os valores estabelecidos, ou dito de outro modo, para ser cronologicamente coerente, Leila Diniz foi a Jacinta Passos de sua época.

A história das representações sociais sobre a mulher da Bahia, na primeira metade do século XX, não pode prescindir dessa leitura, bem como estudos que desejem analisar profundamente, aspectos como: crítica às instituições totais de tratamento de saúde mental, o acerto das bandeiras da luta anti-manicomial, os estigmas associados à condição de mulher de vanguarda em um mundo público masculino, tudo isso se desenrolando entre os anos 40 e início de 70.

As passagens pelas internações psiquiátricas são o grande fio condutor da história, na medida em que  revelam um espírito incompreendido pelo sistema familiar e social, visto que viveu durante sua curta vida, para os padrões atuais, muito tempo aos “cuidados” terapêuticos baseado em eletrochoques que nada contribuíram para tratá-la ou curá-la.

Exatamente durante suas internações nessas instituições totais viveu sua mais produtiva fase de escritora e literata, pois produziu mais de mil páginas em seus últimos três anos de vida e nos legou poemas como “ Duas Américas”, que já nasceram clássicos.

O ponto forte de sua produção são a poesia "Canção de Partida" e "Duas Américas", poemas distintos, de épocas diferentes de sua vida, mas que anunciam a marca de sua obra: homens e mulheres concretos do meio rural e a poesia de conotação política e socialista, com inspirações revolucionárias.

Acerca desta questão da concretude da criação literária, Jacinta Passos escreveu uma análise literária, em jornal baiano dos anos 40, que tem ares atualíssimos no debate em uma perspectiva literária marxista: a poetisa acredita que o campo literário precisa dar conta do real, das condições de vida dos homens e mulheres que retrata. Torna-se interessante enfatizar que Antônio Cândido, ao tecer comentários sobre a produção literária de Jacinta, faz uma comparação com a obra de um também iniciante nesta seara à época, o poeta João Cabral de Mello Neto, ambos nordestinos e autores que analisam os homens e mulheres rurais, as contradições sociais e a política.

Jacinta Passos é dona de uma grande veia irônica, não deixando de lado da análise, nem mesmo as relações no bojo de sua família, que expressam muito das relações familiares de sua época, baseadas na lógica: mulher se cria para procriar e casar com homem de posição, enquanto homem para reproduzir e viver dos negócios e da política. Jacinta inverteu as duas lógicas bem como expôs todas as contradições e  ambigüidades de seu seio familiar. Ressalte-se seu incrível poema que aborda a ambigüidade de sua posição de classe, se burguesa ou proletária, quando ainda vivia sob influência dos pais!

Este pioneiro estudo deixou flancos abertos para futuros estudos, tais como: análise sobre conflitos entre visões de mundo burguesas e socialistas no seio de uma família rururbana (3), a produção social da loucura feminina, o status social de mulheres que ousam viver a frente de seu tempo, abandono familiar e produção literária, partidos de esquerda e trajetórias sociais, as fronteiras entre ideologia, dogmatismo e tradução subjetiva de valores políticos, etc.

Afirmo que o livro de Janaína Amado, uma bela bio-história de sua genitora foi uma grande conquista literária bem como nos ajuda muito a entender a Bahia e a vida das mulheres rebeldes dos anos 50 do século passado. Recomendo a leitura a todos que se interessam pela relação entre literatura, história e memória de famílias.

Alguns pontos merecem maior aprofundamento: a relação Jacinta e Janaína, a relação de Jacinta-James Amado, Janaína e família materna, bem como família Amado x Família Passos, famílias, respectivamente do cacau e do fumo do interior da Bahia. Investigadas essas relações, poderíamos compreender melhor os não ditos desse intrincado, dramático e potente escrito biográfico e histórico que conecta, ao mesmo tempo a história social das mulheres, a arte e a vida de uma grande poetisa e das famílias rurais baianas do século passado. Por fim, registro meu apreço pela poesia de Jacinta que, abordando “homens e mulheres que não “nasceram com colheres de prata em suas bocas”, contribuiu para revelar um olhar sensível sobre os de baixo, conforme inúmeros poemas que tematizaram empregados domésticos de sua família.
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(1) Fui ao lançamento do livro, em fins de julho de 2010, na cidade de Cruz das Almas, Bahia, conheci a organizadora/autora da obra, a Professora titular aposentada de História da UnB, Prof.a Janaína Amado. Até aquele momento não associava a autora desta obra com a Janaína Amado que escreveu em parceria com Ferreira outra obra que já tive nas mãos, o importante livro  Usos e abusos da História Oral.
(2) Família que dá nome a tudo naquela cidade e empresta significado a concepções locais de prestígio, poder e posição social: praça central, bairro, ruas, mitos, etc.
(3) Esta questão da família rururbana é uma das questões interessantes que aparecem na trama, demonstrando o que, em outra publicação, denominei "Salvadorcentrismo".

Luis Flávio Godinho
Doutor em Sociologia
Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

18.7.10

Texto de Marcus Gusmão sobre "Jacinta Passos, Coração Militante"


"Subi para pegar as últimas coisas e checar se não havia esquecido nada. Acabei recolhendo alguns livros, gesto tantas vezes repetido na intenção de ler na viagem. Normalmente voltam quase do mesmo jeito que vão. Entre os candidatos a apenas uma folheada estava ele, com suas 580 páginas no formato 16 X 22 cm: Jacinta Passos, coração militante. Poesia, prosa, biografia, fortuna crítica.
O livro já me havia fisgado. Pelos posts de Janaína sobre a mãe no blog Acreditando no Truque e pelos retratos de época ali contidos.
Ao chegar a Iaçu, o livro caiu primeiro nas mãos de quem de fato lê nesta casa. Soraya então me instigou com o trailer, narrou o último encontro de Janaína com Jacinta, num sanatório, um dos trechos mais comoventes da biografia, falou dos dias de Aracaju, quando Jacinta morou numa lona e mandou de volta para a mãe uma mala recheada de presentes, chateada com a venda do sobrado onde vivera com a família, em Nazaré.
Achei que ia me identificar com a Jacinta no nosso diagnóstico – sim, também já recebi o carimbo psiquiátrico, embora em circunstâncias distintas. Mas me surpreendi ao me identificar com Jacinta desde muito antes, na perspectiva de quem tem no interior suas raízes, de quem admira o céu estrelado da infância, de quem chega a Salvador e encontra o sol, encontra o mar. De quem um dia acreditou na concepção católica de Deus e no comunismo construído por um partido.
Janaína foi filha, escritora, historiadora, arqueóloga. Expôs seus medos, sua dor, seu amor. Montou paciente e meticulosamente um belo suporte. Como uma curadora e guia de uma exposição, conectou peça por peça, deu sentido, recuperou, colocou sob perspectiva uma época, uma obra, uma vida.
Li o livro como quem vê um filme. A história de Jacinta daria um belo filme. Imagino a cena de uma moça ao lado de um jovem pelas ruas da Cidade Baixa, na Salvador de 1941, a caminho de um endereço por ele ignorado. Ela havia conquistado o moço, decidiu se entregar a ele e emprestou a casa de uma amiga para contrariar o destino das mulheres de então, descrito no seu poema Canção Simples: Mulher que tudo já deu, homem que tudo tomou, é mulher que se perdeu, é homem que conquistou.
Daria também uma bela sequência a negociação com o padre que se recusava a batizar a sua filha Janaína. Só concordou quando ao nome da rainha das águas foi acrescido o de Maria.
Imagino no filme também o registro de imagens da guerra, sob a perspectiva de uma jovem baiana, que acompanhou com textos precisos o cenário internacional, registrou as batalhas mais importantes até a derrota do nazismo.
E a poeta Jacinta? Fico com o ponto de vista de Ildásio Tavares, para quem a poesia não é um discurso ideológico, tampouco estético ou social: “A poesia é um discurso poético”. Ildásio despe a poesia de Jacinta dos rótulos para saudá-la uma das mais significativas da nossa literatura. E no poema Eu serei Poesia, de 1942, Jacinta parece concordar com este ponto de vista:
A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.

Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

Ao ler os demais textos da fortuna crítica, o que se escreveu sobre Jacinta Passos, a gente se depara com o universo paralelo dos especialistas, com suas verdades e comparações, cada um puxando a brasa para sua sardinha ideológica, cada um expondo seus saberes, apontando aqui e ali qualidades e defeitos. O próprio Ildásio Tavares escorrega ao elogiar um verso por causa da troca de um “normal” vou morar debaixo da ponte por vou morar junto da ponte como recurso, “artesania” da autora para não quebrar uma redondilha. Na verdade, Jacinta foi morar com a família perto da ponte mesmo, nas margens do Paraguaçu, em Cachoeira.
Como diria Freud, um charuto pode significar apenas um charuto. O que vale mesmo é a interpretação de cada um, o que cada um entende e sente. Parodiando uma outra poeta, é mais prudente aceitar que uma poesia é uma poesia, é uma poesia, é uma poesia.
Ganhei de brinde ao fim da leitura uma palavra nova, macia, bacana mesmo: amanhecente. A palavra é utilizada quando Jacinta fala de sua Campo Limpo, das noites estreladas da sua infância, da sua, da nossa vida amanhecente.
Compartilho aqui também alguns dos muitos versos e frases, sublinhados durante a leitura:

Olhos, pés, mãos, boca, sexo, fronte,
que encarnaram os mais fugitivos movimentos do espírito,
que amaram, pensaram, sentiram, viveram,
e a morte, de súbito, petrificou.
Por que esperam os corpos abandonados
na branca solidão do vasto cemitério?
Morrer não é escolher

Ó! A poesia deste momento que passa,
a grande poesia vivida neste instante
por todos os seres da terra
O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?
Cantar a sua dor de eterno insatisfeito,
cantar o seu sonho infinito desfeito,
cantar o mesmo canto que embalou a infância do mundo.
- Casa e comida é detenção?
- Para gato, não.
tão lúcido e tão puro,
insegura!

Nosso amor é como tudo,
um vaivém
Despir as coisas
de suas transitórias aparências
Porque estás triste, Maria?
deixa Manuel xingar,
xingar também alivia:
é uma forma de chorar
Juízo de menino travesso (depois de quebrar um pente em pedaços):
- Quanto pente!
Há em torno de mim muralhas glaciais.
Vivo encerrada dentro de mim mesma,

debruçada

sobre estas profundezas abissais
Uma gota d’água… é água.
nas tuas mãos ávidas tateando o meu corpo como se quisessem guardar nas pontas dos dedos a memória de minhas formas
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa
Eu digo também a crosta
feita de escamas de pedra
E limo dentro de ti
Água dos mares da Bahia.
Na sombra aqui destas asas
até um dia"
Este texto foi publicado em 04/07/2010 às 22:57, por Marcus Gusmão, no Licuri