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11.5.13

Jacinta Passos, mãe


 




A menina e a mãe
                                                                                             Janaína Amado*


Quando a menina pequena abre os olhos de manhã cedo, pergunta logo Cadê mamãe? Neste dia não tem resposta. Nunca mais terá resposta a essa pergunta. Mazi disfarça, diz que a mãe foi ali e volta já, mas o dia inteiro se passa e a mãe não volta. Irritada, inquieta, a menina não consegue brincar, chora, não tem apetite: Não quero comer esta porcaria!, joga o prato em cima de Mazi.

A menina percebe que alguma coisa está profundamente errada. Não sabe o que é, porém seu

corpo alerta indica o perigo a rondar. Precisa da mãe ali para protegê-la, defendê-la. Chama por ela, chora por ela, mas desta vez a mãe não está ali junto, sumiu. Muito confusamente a menina intui que o problema é a mãe, a mãe é o problema, mas não entende, e chora.

Quando o pai enfim volta para casa, a menina voa em cima dele. Pula em seu pescoço, ansiosa: Cadê mamãe? Ele a põe no chão. A menina percebe que o pai não olha para ela, o olho dele está saindo pela janela, longe. Parece muito cansado, o seu pai. Cadê mamãe, cadê mamãe?, insiste. A resposta chega como surra:

— Mamãe está doente. Vai precisar ficar no hospital.

Doente? Mas mãe não fica doente! Pela primeira vez, o pai sorri. "Fica, sim. Lembra quando ela sentiu aquela dor de garganta e teve de ficar na cama? Estava doente." Mamãe tá com dor de garganta? Não. Tá com dor de dente? Não. Com dor de olho? De nariz? Andando atrás do pai, a menina vai repetindo a mesma pergunta, com a troca da última palavra. Não estava nem na metade da sua lista de partes do corpo, quando o pai dá um berro: "Chega! Me deixa em paz!" tão súbito e alto e aterrador que a menina escorraçada dispara rumo à cozinha, vai chorar no colo de Mazi.

Nesta noite, ela consegue dormir só muito tarde, depois de Mazi cantar o Sapo Cururu várias vezes e seus olhinhos se fecharem de exaustão.

Sonha com a figura forte da mãe ao seu lado, as duas caminhando juntas pela rua clara de sol, uma brisa que vem do mar levantando os cabelos delas, a sua mãozinha protegida dentro da mão firme da mãe. Ela observa admirada aquela mãe tão bonita, alta, elegante, empinada. Ri pra ela, de pura satisfação. Com mamãe, eu não tenho medo de carro. Não tenho medo de cachorro. Nem medo de sumir na multidão. Nem medo de esquecer o caminho de casa. Mamãe sabe. Mamãe conhece todos os caminhos. Mas no sonho então a mãe se vira para ela, rosto sério, e diz:"Estou perdida. Não conheço mais os caminhos."

A partir daí a vida da menina vira confusão barafunda anarquia desarranjo, ela aos trambolhões de uma casa pra outra, o pai o tempo todo no trabalho ou no hospital, Mazi dando adeus e indo embora, um monte de gente estranha em volta, seu mundo de ponta-cabeça, todas as coisas, todas as pessoas fora de lugar, pesadelo.

A menina pergunta a cada hora Por que mamãe tá demorando tanto? Ninguém sabe lhe responder. "Como contar a uma menina pequena que sua mãe ficou doida?", pensam. Quando mamãe vai voltar?, insiste. Ninguém conhece a resposta.

À hora de dormir, no escuro, a menina passa devagar a ponta da fronha no rosto, enquanto pensa perguntas que não tem coragem de dirigir aos outros: Por que mamãe não me disse aonde ia? Por que não me deu adeus, beijo, nada? Por que ela me deixou aqui sozinha?
No dia seguinte, retorna à pergunta habitual: Quando a mamãe vai voltar?

Aquela mãe nunca voltou.

A mãe que sabia todos os caminhos nunca voltou.

A filha não a esquece. Como poderia, se a vida inteira tem caminhado ao seu lado na rua clara de sol, passo a passo com a silhueta sem carnes, com a evocação do vulto esbelto, elegante, altaneiro, a vida inteira assombrada pela convivência íntima com o enigma, com a ausência gigantesca que entretanto misteriosamente ainda é capaz de lhe indicar caminhos?

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* Escrevi este texto há alguns anos. Neste dia das mães de 2013 publico-o aqui, em homengem a Jacinta Passos, minha mãe. A saudade que sinto dela não passa, é saudade do que foi e saudade do que poderia ter sido.

Foto: Jacinta Passos e sua filha Janaína, fevereiro de 1948.

25.3.13

Um mistério ainda sem resposta



Do historiador sergipano Valter Abano, morador em Barra dos Coqueiros  (SE), sobre Jacinta Passos:


O segredo de Jacinta: Um mistério sem resposta

*Valter Albano

   Ela nasceu na fazenda Campo Limpo, município de Cruz das Almas no recôncavo baiano, era novembro de 1914 (início da 1º guerra mundial), oriunda de família abastada, tradicional e de grande influência política, seu avô Themistoclis da Rocha Passos foi duas vezes Senador da província e seu pai Manuel Caetano da Rocha Passos foi Deputado Estadual, sua mãe, Berila Eloy, era extremamente católica assim como suas irmãs, das quais Jacinta era considerada a mais carola.
   Devido à atividade política do pai muda com a família para Salvador onde forma-se na Escola Normal, sempre dedicada à poesia, intensifica seus trabalhos literários ao lado do irmão Manoel Caetano Filho, torna-se uma das mais importantes jornalista e ativista social na década de 40 da capital baiana, abandona o catolicismo e se aproxima de intelectuais comunistas como Jorge Amado, casa-se com James Amado (irmão mais novo de Jorge Amado) em 1944. Filiada ao PCB, é candidata em 1945 a Deputada, não se elegendo.    
  Produziu uma pequena, porém rica obra literária, objeto de elogios de renomados intelectuais como Mário de Andrade e Antonio Candido, em 1942 publicou pela Editora Baiana o livro Nossos Poemas, em 1943 em São Paulo publica Canção da Partida, pela Edição Gaveta; no Rio de Janeiro, em 1951, Poemas Políticos, e por fim publica em 1957 seu quarto e último livro, intitulado A Coluna, uma homenagem a Luiz Carlos Prestes.
  Em 1951 encontrava-se no Rio de Janeiro quando sofre sua primeira crise nervosa com delírios, são os sinais da esquizofrenia. Em 1955, separada do marido e da filha, volta a morar com os pais em Salvador. Por volta do início de 60 vai morar na cidade de Petrolina, no estado de Pernambuco, em 1962 transfere-se para Sergipe, onde passa a morar na cidade de Barra dos Coqueiros, num casebre as margens do rio Sergipe, possivelmente financiada pelo PCB para desenvolver uma célula do partido. Possuía uma máquina de datilografar onde, à noite, produzia poemas que eram distribuídos pelas ruas, participava de reuniões com pescadores e atividades políticas com estudantes.
   Presa em 1965 nas dependências 28 BC e diagnosticada como esquizofrênica, é transferida inicialmente para a Clínica Adauto Botelho e em seguida para a Clínica Santa Maria, no Siqueira Campos, onde passa longos 8 anos pobre, doente e esquecida.
  Morre em 28 de fevereiro de 1973. Sua vinda para Sergipe e os reais motivos de sua atividade política ainda são mistérios que merecem um olhar mais atento. Jacinta Passos faleceu aos 57 anos de idade escrevendo poesias até praticamente o último dia de vida, e fiel à suas crenças.

*Historiador

     valteralbano@hotmail.com            

11.7.12

Jacinta Passos normalista


Este é o prédio da Escola Normal da Bahia, onde Jacinta Passos estudou (1927-1932), diplomando-se professora. Formada, Jacinta ensinou Matemática nessa mesma escola. A Escola Normal era uma das poucas opções de estudo oferecidas às mulheres em Salvador, à época de Jacinta.

A Escola Normal da Bahia, fundada em 1836, teve funcionamento intermitente no século XIX, para firmar-se a partir do início do século XX. Situava-se na Av. Joana Angélica, junto ao “Corredor do Caquende”, entre o bairro de Nazaré (onde Jacinta morava) e o centro da cidade.

Fonte da imagem: revista Memórias da Bahia, Salvador, UNCSAL, nº 1, p. 42.

16.7.11

Mulher, feminista, comunista ...



"Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer. "

Este é o primeiro parágrafo da biografia de Jacinta Passos, escrita por sua filha Janaína. Você pode ler o texto completo da biografia no livro Jacinta Passos, coração militante  (Salvador, EDUFBA e Editora Corrupio, 2010), à venda  nas boas livrarias on-line.