16.7.11

Mulher, feminista, comunista ...



"Mulher, feminista, comunista, separada do marido, empobrecida, louca. Muitos foram os estigmas que Jacinta Passos enfrentou. Sua trajetória de vida absolutamente singular, bem como sua fidelidade às ideias e valores que elegeu, levaram-na a chocar-se diuturnamente contra tudo e todos, na contramão do tempo. Seus embates foram duríssimos. Não fugiu a nenhum. Ao contrário, parece que os buscou. Pagou um preço pessoal muito alto pelas escolhas que fez. Jamais se apresentou como vítima. Caneta e lança na mão, escudo de ferro no peito, foi como guerreira que se apresentou, lutando até o último dia de vida contra muitos, inclusive contra uma parte de si mesma. Venceu, foi derrotada e recomeçou várias vezes, sem nunca ter perdido de todo a ternura, como aconselhava Che Guevara – o Che da Revolução Cubana que ela tanto admirou –, pois foi poeta até morrer. "

Este é o primeiro parágrafo da biografia de Jacinta Passos, escrita por sua filha Janaína. Você pode ler o texto completo da biografia no livro Jacinta Passos, coração militante  (Salvador, EDUFBA e Editora Corrupio, 2010), à venda  nas boas livrarias on-line. 

5.7.11

Lina Arao escreve sobre Jacinta Passos

Acaba de ser lançado um livro, coordenado pela escritora e professora Helena Parente Cunha, contendo ensaios acadêmicos sobre a produção de poetas mulheres:

CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra e Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2011.

Um dos ensaios deste livro trabalha a produção poética de três escritoras, entre elas Jacinta Passos. A obra de Jacinta começa, assim, a ser revisitada por estudiosos e acadêmicos, ganhando novas interpretações, olhares, intertextualidades:

ARAO, Lina. Mulher em três tempos: Luiza Amélia de Queiroz Nunes, Jacinta Passos e Marize Castro. In:   CUNHA, Helena Parente (Coord). Violência simbólica e estratégias de dominação: produção poética de autoria feminina em dois tempos, pp. 226 a 263.

30.6.11

A alegria da poeta



Canção da alegria

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Peneira massa peneira,
peneira peneiradinha,
(Ai! vida tão peneirada)
peneira nossa farinha.

Olhe o rombo
olhe o rombo
olhe o rombo arrombou!
olhe o cisco
olhe o risco
urupemba furou!

Eh! Sai espantalho
da ponta do galho!

Escorra! Escorra!
Tirai essa borra!

Urupemba
urupemba
mandioca aipim!
peneirar
peneirou
que restou no fim?

Farinha fininha
peneiradinha!


nuinha! nuinha!

Jacinta Passos
 
(Escrito em 1944 e publicado em 1945, no livro "Canção da Partida", este é um dos poemas mais alegres de Jacinta, e também um dos mais citados pelos críticos. A partir de uma atividade então corriqueira entre as mulheres do Recôncavo baiano - peneirar a farinha de mandioca -, Jacinta constrói no poema uma metáfora da sua vida.) 

21.6.11

Obra de Jacinta nas principais bibliotecas brasileiras




Há pouco tempo, o blog da Biblioteca Pública da Bahia anunciou:

"Setor de Documentação Baiana adquire novos títulos ".

Entre estes títulos, está:


"Jacinta Passos, Coração Militante - Janaína Amado

A publicação reúne todo o material encontrado a respeito de uma das figuras mais instigantes da literatura baiana do século XX: a poeta Jacinta Passos (1914-1973), nascida em Cruz das Almas, hoje praticamente desconhecida, porque suas obras estavam esgotadas."

A informação nos lembra que Jacinta Passos, Coração Militante, livro com a obra completa de Jacinta Passos, tanto a publicada quanto a até então inédita , mais sua biografia, fortuna crítica e álbum de fotos, hoje faz parte do acervo das principais bibliotecas do Brasil, e também de algumas grandes bibliotecas internacionais. Vários exemplares foram encaminhados às bibliotecas graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), que vinculou o financiamento à edição à distribuição de mais de uma centena de volumes às bibliotecas e instituições de ensino e pesquisa, enquanto outros exemplares foram adquiridos pelas próprias bibliotecas. Hoje, a poesia de Jacinta Passos está disponível a todos os leitores e pesquisadores interessados, tanto em bibliotecas quanto em livrarias.

29.5.11

Desenho de Lasar Segall para "Canção da Partida"



Em 1945, o grande artista brasileiro Lasar Segall fez uma série de onze desenhos para o livro "Canção da Partida", o segundo de Jacinta Passos, que seria publicado naquele ano, numa primorosa publicação das Edições Gaveta. Neste livro, foram aproveitados cinco dos desenhos feitos por Segall, entre os quais este, usado na capa do livro, atualmente propriedade de Janaína Amado, filha da poeta. Devido à cor parda do papel, a reprodução não consegue captar toda a beleza dos finos traços de Segall, mas se pode ter uma idéia. Os desenhos originais do grande artista estão catalogados e  acondicionados no Museu Lasar Segall, e foram integralmente reproduzidos no livro "Jacinta Passos, coração militante", graças à autorização da direção do museu. 

1.5.11

Canção para Maria



Canção para Maria


Por que estás triste, Maria,
como noite sem espera,

por que estás triste, Maria,

que eu vi no porto de Santos
e nos campos da Bahia?
Tua fala me responde:
sete e sete são quatorze,
caranguejo peixe é,
como custa ai! como custa

de remar contra a maré.


Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar.


Não tenho pena e consolo,
nem fuga para te dar.


Tua sorte será feita
com o poder de tua mão,
se vence fera e doença,

também fome e solidão,

se vence até a loucura

com o poder de tua mão.
Amanhã vamos à lua
diz a ciência: por que não?
se vence governo e polícia,
ó Maria,
com o poder de tua mão.


Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar


Eu já vejo amanhecendo
tão belo, no seu olhar.


Tão real como teres pés
é a fala do velho Stalin,

é o novo mundo chinês.

Tão certo como um provérbio

que a boca do povo fez.


A paz não chega de graça
como chuva cai do céu.

Quanto suor, pensamento,

quanta bravura escondida,

Maria, neste momento.

Tua sorte é de teu povo,
ninguém pode separar.


Sou povo, não sou cativo,
Quitéria pegou nas armas

Zumbi foi um negro altivo

pelas mãos deste pracinha

foi Hitler queimado vivo,

ó senhor americano,
sou povo, não sou cativo:
teu poder? Era uma vez
histórias da carochinha
e jugo do português.


Verdade tão verdadeira
nem precisa se enfeitar.

Vamos, Maria, vamos,
o mundo é céu, terra e mar.
                                             Jacinta Passos
                                             (em Jacinta Passos, Coração Miliante, Salvador, EDUFBA/Corrupio, 2010, pp 215-217).

[Em "Canção para Maria" estão presentes alguns dos temas caros à obra de Jacinta Passos, como a  mobilização política, sua identificação com a situação das mulheres brasileiras, especialmente as mulheres pobres, do povo, e sua esperança na construção de um mundo mais justo, que identificava com o do socialisno.. Este poema foi publicado pela primeira vez em Fundamentos – revista de cultura moderna. São Paulo: Ano V, n. 31, 1953, p. 10, dos comunistas de São Paulo, que circulou ente julho de 1948 e meados da década de 1950.
Ao final do poema, estão anotados local e data de sua criação: “(São Paulo, 1952)”. Como, durante praticamente todo o ano de 1952, Jacinta esteve internada em sanatórios, no Rio de Janeiro e em São Paulo, é provável que “Canção de Maria” tenha sido escrito quando ela esteve internada.O poema foi publicado pela primeira vez em livro no Jacinta Passos, coração militante].

*Imagem: Cândido Portinari, "Mulher Chorando".

20.4.11

De Jorge Amado, para Jacinta


Na dedicatória da foto, está escrito: "Para James, Jacinta e Jana, o carinho do irmão Jorge. Setembro 1951 - Dobris" Assinado: Jorge.
O escritor Jorge Amado, no exílio no castelo de Dobris (onde ficavam reunidos escritores), na então socialista Tchecoslováquia, enviou foto sua ao irmão James, à cunhada Jacinta e à sobrinha Janaína, que moravam no Rio de Janeiro. No livro Coração militante, há uma carta de Jacinta Passos que se refere a esta foto.   

4.4.11

A solidão da poeta

O sentimento de solidão surge poeticamente muito cedo na obra de Jacinta Passos. O poema abaixo, escrito em 1936, que viria a integrar o primeiro livro da autora, publicado em 1942, é um dos que expressam esse sentimento de solidão absoluta — que, em outros poemas, assume a assumir a forma de um sentimento de exílio:



Solidão


Há em torno de mim muralhas glaciais.

Vivo encerrada dentro de mim mesma,

debruçada

sobre estas profundezas abissais

do meu ser,

sobre esta solidão interior

de um mundo fechado,

áspera solidão inacessível

onde existe

um silêncio gelado,

amargo,

vazio.

(De "Momentos de poesia")
 
* Imagem: Jacinta Passos jovem, criação e montagem de Alice Puente.

31.1.11

Regina Dalcastagnè escreve sobre "Jacinta Passos, coração militante"



(Publicado no Suplemento “Prosa & Verso”, jornal O Globo, Rio de Janeiro, sábado, 29/01/2011)

Relato afetivo de um drama político e familiar

Trazer a público a trajetória e a obra de uma intelectual brasileira ligada ao Partido Comunista em meados do século passado, e esquecida hoje, não deveria ser problema para uma pesquisadora experiente no ramo, com vários livros de História publicados. Mas quando o objeto de estudo é a própria mãe, que não a criou e que passou longos anos de sua vida em clínicas psiquiátricas e sanatórios, o assunto se torna, no mínimo, delicado. E é assim, com extrema delicadeza e cuidado, que Janaína Amado reconstrói os passos de sua mãe, resgatando seus poemas, palestras, artigos de jornais, no belo Jacinta Passos: coração militante.

Num interessante jogo de distanciamento histórico e proximidade afetiva (ou vice-versa), Amado consegue montar um retrato vívido de uma mulher que enfrentou a família (de proeminentes fazendeiros e políticos baianos), a sociedade (que viu a jovem professora católica se transformar em uma ardente jornalista, abandonar a religião e se casar com um rapaz muito mais jovem) e o regime (primeiro o de Vargas e depois o dos generais de 1964). Uma mulher que lutou sem parar pelas ideias em que acreditava, que tomou as rédeas de sua própria vida e que perdeu muitas batalhas, mas que foi derrotada pela esquizofrenia – e por tudo o que significava, e continua significando, um diagnóstico como esse.

Recuperar essa história significa remar contra décadas de silêncio, da família, do mercado editorial, mas também do círculo político e intelectual que a acolheu e depois a excluiu, de diferentes maneiras. Jacinta era casada com James Amado, irmão de Jorge, e conviveu com os principais escritores e artistas de esquerda da época, especialmente em São Paulo. Foi uma das mais ativas jornalistas da Bahia, com posições firmes sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a necessidade de organização das mulheres e o papel dos intelectuais na política brasileira. Chegou a ser candidata a deputada federal constituinte pelo PCB em 1945 e a deputada estadual em 1947.

Em 1951 ela estava morando no Rio de Janeiro com o marido quando, após um surto, é internada pela primeira vez (aos 37 anos), começando um tratamento à base de eletrochoques, insulina e barbitúricos. Suas crises e alucinações estavam sempre relacionadas com perseguições políticas, “expressavam cercos, agressões, torturas e assassinatos praticados pela repressão”. Jacinta foi presa duas vezes, fazendo discursos nas ruas e pichando muros, mas era liberada com a alegação da família de que tinha problemas mentais. Em 1953 seu casamento acaba e ela volta para Salvador em 1955 – sem marido e com o estigma do internamento, ela perde também seu espaço na vida política e intelectual da cidade.

A sua situação se agrava em 1958, quando ela exige a guarda da filha. Para evitar ir aos tribunais, o ex-marido pede a Carlos Marighela, dirigente do PCB e amigo do casal, que lhe diga que o partido decidiu mandar a menina à União Soviética, para estudar. Essa falsa viagem marca uma separação de 12 anos com Janaína que, quando decide finalmente revê-la, ainda no sanatório, não é reconhecida por ela como sua filha. Jacinta morre em 1973, internada, aos 57 anos de idade.

Jacinta Passos: coração militante traz a íntegra de sua poesia (os quatro livros lançados entre entre 1942 e 1958, todos em pequenas tiragens, apenas um dos quais reeditado, mas também seus poemas esparsos, nunca antes publicados em livro), seus artigos de jornal e textos em prosa e verso escritos nos últimos anos de sua vida (havia ainda sete livros inéditos e uma série de manuscritos, mas eles foram queimados pela irmã e pela mãe, temerosas por seu conteúdo revolucionário). Reúne a fortuna crítica sobre ela, incluindo artigos de Mário de Andrade e Antonio Candido, e traz um conjunto de estudos inéditos sobre sua obra. Há também belas fotos da poeta e sua família, além dos desenhos que Lasar Segall fez especialmente para o segundo livro de Jacinta, Canção de partida, publicado em 1945.

Mas talvez o mais importante da obra seja justamente a biografia escrita por Janaína Amado – um trabalho meticuloso, feito a partir de pesquisa e entrevistas com as pessoas que conviveram com Jacinta, incluindo suas próprias memórias de menina, quase sempre desconfortável, quando não assustada, diante da mãe exigente, com quem se encontrava nas férias e nas raras visitas ao sanatório. É a biografia que nos permite valorizar a obra de Jacinta Passos, reintroduzi-la na história da imprensa, da política e da literatura brasileira, fornecendo novas possibilidades de leituras sobre esse período da história cultural do país.

O livro não deixa de ser uma homenagem a essa intelectual, mas é também uma forma de dizer que a mãe não foi renegada, nem esquecida. Marca, ainda, a necessidade de lembrarmos daquelas que vieram antes de nós e que abriram os caminhos para a independência das mulheres, mesmo que com um alto custo para si próprias.

Regina Dalcastagnè
(Professora de literatura da UnB e pesquisadora do CNPq)

Janaína Amado (org.) – Jacinta Passos: coração militante (poesia, prosa, biografia, fortuna crítica). Salvador: EDUFBA/Corrupio, 2010, 574 páginas.

[*Imagem: foto de Jacinta e Janaína, Rio de Janeiro, 1951; arquivo particular de Janaína Amado)

28.1.11

Algumas opiniões de críticos


Os quatro livros que Jacinta Passos publicou receberam críticas elogiosas dos mais importantes estudiosos de literatura, escritores e críticos literários da época. Abaixo, um resumo de algumas destas opiniões:

. Jacinta Passos se firmou, com Canção da Partida, numa posição de primeira plana na moderna poesia brasileira. (Antonio Cândido, professor, estudioso e crítico de literatura)
. Na feição do poema participante, do poema de luta e de reivindicação social, Jacinta Passos fez sucesso, destacando-se como uma das vozes mais claras e gritantes da nossa poética militante. (Paulo Dantas, escritor e jornalista)

. Tudo é um canto de poesia que vai da poesia mais íntima ao canto longo da libertação, voz da maioria das mulheres conscientes e profundas. (Aníbal Machado, escritor)

. Arrebata, se comunica, ganha a alma. Prolongue a “Canção Simples”, digamos às mulheres. (Gabriela Mistral, poeta chilena, Prêmio Nobel de Literatura em 1945)

. O timbre inconfundivelmente feminino da voz de Jacinta Passos, ao mesmo tempo que lhe garante a autenticidade, a singulariza no quadro da nossa poesia participante ou engajada. (José Paulo Paes, poeta e crítico literário)

. "Canção da Partida" se caracteriza por uma sensibilidade que, por ser bem feminina, nada tem de piegas. (crítico e escritor Sérgio Milliet)

. Esta síntese entre o sabor das formas folclóricas e o sentimento da miséria dos homens, da solidariedade no sofrimento, a profecia de um mundo mais justo e mais fraternal, eu a encontro realizada com sucesso nos poemas de Jacinta Passos. (Roger Bastide, sociólogo e crítico literário francês, especialista em cultura brasileira)

. A poesia de Jacinta Passos foi lida e relida muitas vezes aqui em casa, tanto por mim como pela Guita, minha mulher, e "Cantiga das Mães" é uma de minhas preferências. Há um grande trabalho a fazer para tornar mais conhecida essa obra poética tão boa. (José Mindlin, bibliófilo)

* Imagem: foto inédita de Jacinta Passos adolescente; arquivo particular de Janaína Amado.

25.1.11

Jacinta no Planetanews



O livro de Jacinta Passos foi indicado pelo Planetanews, o site da comunidade brasileira no exterior, que traz contribuições, atividades e indicações principalmente de acadêmicos nossos pelo mundo. Para acessar a indicação, clique aqui.

11.1.11

"Coração militante" à venda também no Submarino!



Você agora pode comprar o livro Jacinta Passos, coração militante - que traz a obra completa, a biografia e a fortuna crítica da poeta e jornalista -, também no site Submarino. Para isto, clique aqui.

O livro é vendido ainda em livrarias e nos sites da Livraria Cultura e da Edufba.

31.12.10

Comprimidos poéticos




Nos cadernos em que escreveu durante os últimos anos de vida, quando esteve internada na Casa de Saúde Santa Maria, em Aracaju, Sergipe, Jacinta Passos criou poemas, peças de teatro, letras de canção, textos sobre teoria da literatura. E alguns aforismos, que denominou "Comprimidos poéticos". Eis alguns deles, publicados pela primeira vez no livro "Jacinta Passos, coração militante":


Teu olho vê o que o teu coração quer.


Matéria morta: um fio do meu cabelo principia a morrer.


Criança não é propriedade – eis um princípio pedagógico.


Ver é optar.


Pensar é operar.

Morrer não é escolher.

* Imagem daqui .

8.12.10

A Coluna






Com as estrofes abaixo começa o poema épico "A Coluna", de Jacinta Passos, que constitui o conteúdo de seu último livro publicado em vida, A Coluna, lançado no Rio de Janeiro em 1957, pela  A. F. Coelho Branco Editor, e integralmente republicado em Jacinta Passos, coração militante (Salvador, EDUFBA-Corrupio, 2010). 
O longo poema épico recria episódios e personagens da Coluna Prestes, marcha de cerca de 25.000 km empreendida por homens e mulheres que, sob o comando entre outros de Miguel Costa e Luiz Carlos Prestes, percorreu durante dois anos (1925-1927) grande parte do interior do Brasil, perseguida por forças governamentais e privadas. Embora nunca tenha sido vencida pelas tropas do governo, a Coluna também não conseguiu o objetivo de comandar uma rebelião popular para depor os governos Arthur Bernardes e Washington Luiz. Sem perspectiva de vitória, acabou se embrenhando na Bolívia. A Coluna recria, em tom épico e evocações líricas, episódios acontecidos durante a marcha, cantando cenas de batalhas e do cotidiano da gente humilde que aderiu à revolta.

A partida

               I
  
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu
neste ano de Vinte e Quatro
todo o Brasil sacudiu
será Coluna de fogo
que o viajante já viu.
Coluna de vento e areia
dos desertos desafio?
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu.

II


Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim
o gaúcho indaga atento:
para onde marcham assim?
– Adeus cidades que ficam,
Santo Ângelo de onde vim,
arredai serras, adeus
a quem fica atrás de mim –
Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim.

 * Imagem copiada de Historianet

20.11.10

Poema de Jacinta no longitudes, de Nydia Bonetti



A poeta Nydia Bonetti, cuja poesia,  apresentada no blog longitudes, me encanta e comove, escolheu este poema de Jacinta (ao lado do "Canção do amor livre", reproduzido aqui no post anterior) para apresentar a poeta baiana a seus leitores:

"Cântico do exílio"

Compreendi, Senhor, compreendi
a voz que sobe
do fundo misterioso do meu ser.
Esta angústia que vive dentro de mim,
Somente há de ter fim
quando nada mais existir entre nós,
quando, num dia sem crepúsculo,
eu me abismar em ti,
no teu esplendor absoluto.

Ao final de sua postagem, Nydia acrescentou este trecho:

"*Do livro: Jacinta Passos, Coração Militante, poesia, prosa, biografia e fortuna crítica, organizado por Janaína Amado. Nem terminei de ler ainda, mas precisava dividir com vocês estas belezas. Virão outras, com certeza. Parabéns, Janaína, o livro é belíssimo, teu trabalho primoroso e a poesia de Jacinta Passos absolutamente encantadora. Abraço forte."

19.11.10

Jacinta no Ars longa, Vita brevis


João Renato, do Ars longa, Vita brevis, escolheu estas poesias de Jacinta Passos para postar em seu excelemte blog:

"Eu Serei a Poesia"

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir. ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

"Canção do amor livre"

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.


Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.


Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.


Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

17.11.10

Entrevista sobre Jacinta Passos na Rádio Unesp

Veja a excelente entrevista na Rádio Unesp de São Paulo, comandada por Oscar d'Ambrosio, sobre a trajetória e a obra completa de Jacinta. Clique abaixo:

http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario

29.10.10

¨Coração militante¨ no Umbigo do Sonho

A escritora Adelaide Amorim escreveu a respeito de Jacinta Passos, coração militante, no seu ótimo blog Umbigo do Sonho:

Coração resgatado

Fico imaginando o que significou para a historiadora Janaína Amado a pesquisa, organização e preparação da história de sua própria mãe, cuja obra ameaçava se perder. Num volume de 574 páginas, Janaína registrou o que ela escreveu em vida – seus quatro livros publicados, obras esparsas, textos de vários gêneros, manuscritos em cadernos (dos quais muitos não foi possivel recuperar) e os textos jornalísticos.

Além da obra escrita, o livro traz a biografia detalhada da militante Jacinta, cujo texto, uma narrativa preparada com carinho e seriedade, foi enriquecido por inúmeros depoimentos de parentes, amigos, correligionários e tanta gente que teve contato com ela. Descreve ainda as dificuldades e o sofrimento da poeta e jornalista, de quem ela diz, na apresentação da obra:

“Pagou um preço altíssimo por derrubar tantas barreiras, na contramão da vida, na construção do caminho duro de seus ideais. Afirmou-se como mulher e intelectual, mas sua existência foi muito difícil, marcada por rupturas, fortes desilusões, crises psicológicas. Foi excluída, perseguida, presa, internada em sanatórios.”

Tais dificuldades, que terminaram por afastá-la da mãe ainda bem cedo, na infância, não impediram que sua filha preservasse, com cuidado e carinho, a memória e o trabalho dessa mulher singular, que literalmente deu a vida por uma causa.

Janaína coligiu ainda a importante fortuna crítica referente ao trabalho de Jacinta, textos assinados por intelectuais de importância em sua época, como Antônio Cândido, José Paulo Paes, Sérgio Milliet e muitos outros, assim como textos mais recentes, preparados especialmente para figurar no livro.

Quero agradecer a Janaína a dádiva de conhecer esse livro, uma edição bem cuidada, perfeita e belíssima, não só pelo magnífico conteúdo e pelo trabalho gráfico de alta qualidade, como pelo carinho com que foi preparado. Um livro que testemunha o que podem o amor e a dedicação, e agora brilha aqui em minha estante. Obrigada mesmo, Janaína, também pela delicadeza do presente e pela alegria que me deu.










12.10.10

Entrevista na rádio Senado sobre Jacinta Passos



O programa Autores e livros, comandado na Rádio Senado pela escritora e professora Margarida Patriota, traz uma entrevista com Janaína Amado, acerca da trajetória de Jacinta Passos e da construção do livro sobre a poeta baiana.
Clique aqui para ouvir a entrevista. 

10.10.10

Eliane F.C. Lima escreve sobre Jacinta Passos


"A poeta sobre a qual comentarei hoje, Jacinta Passos (Recôncavo baiano - 1914-1973), era uma mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, pois já a partir de 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, apesar de haver recebido forte formação religiosa, comum na época, começou a ter intensa militância política, lutando por questões relevantes sociais, como a paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas, de uma forma geral. Um de seus textos mostra, poeticamente, esse mundo interior que possuía.

Canção da liberdade

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver.

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

(trecho do poema in Canção da partida)

Professora por formação, no novo caminho que escolhera, acaba se relacionando com intelectuais comunistas, como o escritor Jorge Amado, com cujo irmão, James Amado, se casaria mais tarde. Sua filha Janaína Amado é fruto desse casamento.
Em 1945, já está oficialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro, onde permanece até morrer.
Muda-se depois – 1951 –, com sua nova família para São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro.
No final desse mesmo ano, um fato marca sua vida e a separa do marido e da filha: após crise nervosa e de se ver internada em clínica psiquiátrica, recebe o diagnóstico de esquizofrenia, tendo seu tratamento, compatível com o que se acreditava na ocasião, lhe proporcionado grande sofrimento.
Voltando para Salvador, só, embora mantenha relacionando ocasional com a filha, vai residir com os pais, mas continua sua atuação política e social em comunidades pobres, como em uma colônia de pescadores de Aracaju, onde vivia ela mesma em extrema pobreza.
Continua sua atuação mesmo após o golpe militar de 1964, o que lhe vale, em 1965, a prisão, quando escrevia em muros da cidade sua revolta à ditadura. Sua família interfere, alegando seu problema psiquiátrico, e Jacinta é internada numa casa de saúde da cidade, onde fica até sua morte – 1973 –, com apenas cinquenta e oito anos de idade.
Apesar de ter sua vida ligada à de Jorge Amado, não é por esse motivo que se torna poeta, é bom que se deixe claro, pois seu primeiro livro de poesias, Nossos poemas, já sai em 1942, dividido em duas partes: “Monumentos de poesia”, com poemas de Jacinta; “Mundo em agonia”, com poemas de Manoel Caetano Filho, seu irmão. O livro já foi recebido com críticas favoráveis aos dois na imprensa baiana.

Obras
Poemas
Nossos poemas (1942 – Salvador: Editora Bahiana)
Canção da Partida (1945 – São Paulo: Edições Gaveta – edição de apenas duzentos exemplares, assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall, tendo recebido elogios de nomes nacionais como Aníbal Machado, Antonio Cândido, Mário de Andrade, dentre outros).
Poemas políticos (1951 - Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil - poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores).
A Coluna (1957 - Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes).

Em 2010, sua filha Janaína Amado, escritora e historiadora, organiza o livro Jacinta Passos, coração militante, lançado, em conjunto, pelas editoras Edufba (da Universidade Federal) e pela Corrupio, reunião da obra completa da escritora, com artigos jornalísticos e inéditos, além da fortuna crítica. Os desenhos de Lasar Segall, do livro Canção da partida, são trazidos de volta. A admiração da filha por Jacinta fica bem patente, não só pela obra publicada, fazendo ressurgir toda a produção da mãe, mas por dois espaços (aqui e aqui– site oficial) na internet a ela dedicados e aos quais agradeço. Foi do primeiro link que partiu a facilitação de minha pesquisa, encaminhada aos diversos outros sites onde se informou sobre a poeta e aos quais estendo meu agradecimento. No segundo, pode-se visitar poemas e prosa da escritora.

Escrevendo Jacinta Passos, em jornais e revistas, um de seus temas, como foi dito, era a denúncia da opressão sofrida pelas mulheres, o que se refletiu até em seus poemas, como os abaixo:

Canção Simples

A flor caída no rio
que a leva para onde quer
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

Mulher que tudo já deu
homem que tudo tomou,
é mulher que se perdeu,
é homem que conquistou.

(Canção da Partida)

Chiquinha

Chiquinha
Chiquinha
tão frágil,
magrinha.
Teu corpo miúdo,
O tempo secou,
As formas redondas,
o tempo gastou.

(...)

Teu corpo cansado
lutou no Egito
as mãos, mãos escravas,
abanaram leques
e teu corpo nu,
teus seios morenos
e teus pés pequenos
dançaram lascivos,
ligeiros, airosos,
deleitando o tédio
de reis ociosos.

Chiquinha,
teu corpo cansado,
foi corpo explorado
na Mesopotâmia,
na Pérsia e Turquia
- haréns de sultão –
foi pária na Índia,
na China e Japão.
Teu corpo explorado
foi mercadoria,
espada e cavalo
e vinho, foi orgia
na Arábia lendária,
de ardência e magia.

(…)

Chiquinha
Chiquinha
durante dez séculos,
teu corpo fechado
nas torres feudais
de imensos castelos
foi corpo arrancado
da terra, da vida,
corpo sem raiz,
feito puro de espirito,
mistério e tabu,
teu corpo adorado
foi corpo explorado.

(Canção da Partida)



Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(...)

- Pelo sinal da pobreza!
- Pelo sinal de mulher!
- Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
- ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

(Canção da partida)

Abaixo coloco alguns de seus textos do livro Poemas políticos, embora eu deva salientar que a poesia vai muito além de uma questão momentânea. Mas quem sou eu para discutir com a autora o título que ela mesma lhe deu.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

(Poemas políticos)

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

(Poemas políticos)

Mas devemos nos deliciar também com os poemas líricos de Jacinta, os quais têm a mesma força dos de cunho libertário. Em uma linguagem simples e direta, como foi a ação em sua vida, sem jogos figurativos muito requintados, atinge em todos a poesia que emociona.

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

(Poemas políticos)

Cantiga de Ninar

Senhora Onda do Mar
vestida de verde com franjas de luar,
ninai meu filhinho fechai seu olhinho
seu soninho velai
que mamãe precisa fazer com papai,
Senhora Onda do Mar,
um planeta novo de neném morar.

Su su su
Quem dorme na lagoa
é sapo-cururu.

(Canção da Partida)

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?
Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

(Canção da Partida)

Fecho a postagem com um poema de Jacinta Passos, que, parecendo antever sua grande ação social e seu final de vida, resume-a, assim, em 1942. Doente e com problemas de saúde, o que ficou da escritora foi mesmo sua essência lírica, o que atravessou o túnel do tempo e a traz de volta. Não é o que se diz dela, dados ligados à história do país, de um “indivíduo”, afinal, o que a marca mais fortemente, mas a força e verdade de um sujeito poético

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras."

Eliane F.C. Lima, publicado em Literatura em vida 2, 10/10/2010