31.12.10

Comprimidos poéticos




Nos cadernos em que escreveu durante os últimos anos de vida, quando esteve internada na Casa de Saúde Santa Maria, em Aracaju, Sergipe, Jacinta Passos criou poemas, peças de teatro, letras de canção, textos sobre teoria da literatura. E alguns aforismos, que denominou "Comprimidos poéticos". Eis alguns deles, publicados pela primeira vez no livro "Jacinta Passos, coração militante":


Teu olho vê o que o teu coração quer.


Matéria morta: um fio do meu cabelo principia a morrer.


Criança não é propriedade – eis um princípio pedagógico.


Ver é optar.


Pensar é operar.

Morrer não é escolher.

* Imagem daqui .

8.12.10

A Coluna






Com as estrofes abaixo começa o poema épico "A Coluna", de Jacinta Passos, que constitui o conteúdo de seu último livro publicado em vida, A Coluna, lançado no Rio de Janeiro em 1957, pela  A. F. Coelho Branco Editor, e integralmente republicado em Jacinta Passos, coração militante (Salvador, EDUFBA-Corrupio, 2010). 
O longo poema épico recria episódios e personagens da Coluna Prestes, marcha de cerca de 25.000 km empreendida por homens e mulheres que, sob o comando entre outros de Miguel Costa e Luiz Carlos Prestes, percorreu durante dois anos (1925-1927) grande parte do interior do Brasil, perseguida por forças governamentais e privadas. Embora nunca tenha sido vencida pelas tropas do governo, a Coluna também não conseguiu o objetivo de comandar uma rebelião popular para depor os governos Arthur Bernardes e Washington Luiz. Sem perspectiva de vitória, acabou se embrenhando na Bolívia. A Coluna recria, em tom épico e evocações líricas, episódios acontecidos durante a marcha, cantando cenas de batalhas e do cotidiano da gente humilde que aderiu à revolta.

A partida

               I
  
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu
neste ano de Vinte e Quatro
todo o Brasil sacudiu
será Coluna de fogo
que o viajante já viu.
Coluna de vento e areia
dos desertos desafio?
Ó céus e terras, tremei
que a Coluna já partiu.

II


Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim
o gaúcho indaga atento:
para onde marcham assim?
– Adeus cidades que ficam,
Santo Ângelo de onde vim,
arredai serras, adeus
a quem fica atrás de mim –
Partiu das terras do sul,
dos descampados sem fim.

 * Imagem copiada de Historianet

20.11.10

Poema de Jacinta no longitudes, de Nydia Bonetti



A poeta Nydia Bonetti, cuja poesia,  apresentada no blog longitudes, me encanta e comove, escolheu este poema de Jacinta (ao lado do "Canção do amor livre", reproduzido aqui no post anterior) para apresentar a poeta baiana a seus leitores:

"Cântico do exílio"

Compreendi, Senhor, compreendi
a voz que sobe
do fundo misterioso do meu ser.
Esta angústia que vive dentro de mim,
Somente há de ter fim
quando nada mais existir entre nós,
quando, num dia sem crepúsculo,
eu me abismar em ti,
no teu esplendor absoluto.

Ao final de sua postagem, Nydia acrescentou este trecho:

"*Do livro: Jacinta Passos, Coração Militante, poesia, prosa, biografia e fortuna crítica, organizado por Janaína Amado. Nem terminei de ler ainda, mas precisava dividir com vocês estas belezas. Virão outras, com certeza. Parabéns, Janaína, o livro é belíssimo, teu trabalho primoroso e a poesia de Jacinta Passos absolutamente encantadora. Abraço forte."

19.11.10

Jacinta no Ars longa, Vita brevis


João Renato, do Ars longa, Vita brevis, escolheu estas poesias de Jacinta Passos para postar em seu excelemte blog:

"Eu Serei a Poesia"

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir. ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

"Canção do amor livre"

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.


Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.


Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.


Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

17.11.10

Entrevista sobre Jacinta Passos na Rádio Unesp

Veja a excelente entrevista na Rádio Unesp de São Paulo, comandada por Oscar d'Ambrosio, sobre a trajetória e a obra completa de Jacinta. Clique abaixo:

http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario

29.10.10

¨Coração militante¨ no Umbigo do Sonho

A escritora Adelaide Amorim escreveu a respeito de Jacinta Passos, coração militante, no seu ótimo blog Umbigo do Sonho:

Coração resgatado

Fico imaginando o que significou para a historiadora Janaína Amado a pesquisa, organização e preparação da história de sua própria mãe, cuja obra ameaçava se perder. Num volume de 574 páginas, Janaína registrou o que ela escreveu em vida – seus quatro livros publicados, obras esparsas, textos de vários gêneros, manuscritos em cadernos (dos quais muitos não foi possivel recuperar) e os textos jornalísticos.

Além da obra escrita, o livro traz a biografia detalhada da militante Jacinta, cujo texto, uma narrativa preparada com carinho e seriedade, foi enriquecido por inúmeros depoimentos de parentes, amigos, correligionários e tanta gente que teve contato com ela. Descreve ainda as dificuldades e o sofrimento da poeta e jornalista, de quem ela diz, na apresentação da obra:

“Pagou um preço altíssimo por derrubar tantas barreiras, na contramão da vida, na construção do caminho duro de seus ideais. Afirmou-se como mulher e intelectual, mas sua existência foi muito difícil, marcada por rupturas, fortes desilusões, crises psicológicas. Foi excluída, perseguida, presa, internada em sanatórios.”

Tais dificuldades, que terminaram por afastá-la da mãe ainda bem cedo, na infância, não impediram que sua filha preservasse, com cuidado e carinho, a memória e o trabalho dessa mulher singular, que literalmente deu a vida por uma causa.

Janaína coligiu ainda a importante fortuna crítica referente ao trabalho de Jacinta, textos assinados por intelectuais de importância em sua época, como Antônio Cândido, José Paulo Paes, Sérgio Milliet e muitos outros, assim como textos mais recentes, preparados especialmente para figurar no livro.

Quero agradecer a Janaína a dádiva de conhecer esse livro, uma edição bem cuidada, perfeita e belíssima, não só pelo magnífico conteúdo e pelo trabalho gráfico de alta qualidade, como pelo carinho com que foi preparado. Um livro que testemunha o que podem o amor e a dedicação, e agora brilha aqui em minha estante. Obrigada mesmo, Janaína, também pela delicadeza do presente e pela alegria que me deu.










12.10.10

Entrevista na rádio Senado sobre Jacinta Passos



O programa Autores e livros, comandado na Rádio Senado pela escritora e professora Margarida Patriota, traz uma entrevista com Janaína Amado, acerca da trajetória de Jacinta Passos e da construção do livro sobre a poeta baiana.
Clique aqui para ouvir a entrevista. 

10.10.10

Eliane F.C. Lima escreve sobre Jacinta Passos


"A poeta sobre a qual comentarei hoje, Jacinta Passos (Recôncavo baiano - 1914-1973), era uma mulher excepcional, no sentido mais literal da palavra, pois já a partir de 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, apesar de haver recebido forte formação religiosa, comum na época, começou a ter intensa militância política, lutando por questões relevantes sociais, como a paz mundial, contra o fascismo, a opressão das mulheres e das minorias exploradas, de uma forma geral. Um de seus textos mostra, poeticamente, esse mundo interior que possuía.

Canção da liberdade

Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver.

Nada eu tenho neste mundo,
sozinha!
Eu só tenho a vida minha.

(trecho do poema in Canção da partida)

Professora por formação, no novo caminho que escolhera, acaba se relacionando com intelectuais comunistas, como o escritor Jorge Amado, com cujo irmão, James Amado, se casaria mais tarde. Sua filha Janaína Amado é fruto desse casamento.
Em 1945, já está oficialmente ligada ao Partido Comunista Brasileiro, onde permanece até morrer.
Muda-se depois – 1951 –, com sua nova família para São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro.
No final desse mesmo ano, um fato marca sua vida e a separa do marido e da filha: após crise nervosa e de se ver internada em clínica psiquiátrica, recebe o diagnóstico de esquizofrenia, tendo seu tratamento, compatível com o que se acreditava na ocasião, lhe proporcionado grande sofrimento.
Voltando para Salvador, só, embora mantenha relacionando ocasional com a filha, vai residir com os pais, mas continua sua atuação política e social em comunidades pobres, como em uma colônia de pescadores de Aracaju, onde vivia ela mesma em extrema pobreza.
Continua sua atuação mesmo após o golpe militar de 1964, o que lhe vale, em 1965, a prisão, quando escrevia em muros da cidade sua revolta à ditadura. Sua família interfere, alegando seu problema psiquiátrico, e Jacinta é internada numa casa de saúde da cidade, onde fica até sua morte – 1973 –, com apenas cinquenta e oito anos de idade.
Apesar de ter sua vida ligada à de Jorge Amado, não é por esse motivo que se torna poeta, é bom que se deixe claro, pois seu primeiro livro de poesias, Nossos poemas, já sai em 1942, dividido em duas partes: “Monumentos de poesia”, com poemas de Jacinta; “Mundo em agonia”, com poemas de Manoel Caetano Filho, seu irmão. O livro já foi recebido com críticas favoráveis aos dois na imprensa baiana.

Obras
Poemas
Nossos poemas (1942 – Salvador: Editora Bahiana)
Canção da Partida (1945 – São Paulo: Edições Gaveta – edição de apenas duzentos exemplares, assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall, tendo recebido elogios de nomes nacionais como Aníbal Machado, Antonio Cândido, Mário de Andrade, dentre outros).
Poemas políticos (1951 - Rio de Janeiro: Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil - poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores).
A Coluna (1957 - Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes).

Em 2010, sua filha Janaína Amado, escritora e historiadora, organiza o livro Jacinta Passos, coração militante, lançado, em conjunto, pelas editoras Edufba (da Universidade Federal) e pela Corrupio, reunião da obra completa da escritora, com artigos jornalísticos e inéditos, além da fortuna crítica. Os desenhos de Lasar Segall, do livro Canção da partida, são trazidos de volta. A admiração da filha por Jacinta fica bem patente, não só pela obra publicada, fazendo ressurgir toda a produção da mãe, mas por dois espaços (aqui e aqui– site oficial) na internet a ela dedicados e aos quais agradeço. Foi do primeiro link que partiu a facilitação de minha pesquisa, encaminhada aos diversos outros sites onde se informou sobre a poeta e aos quais estendo meu agradecimento. No segundo, pode-se visitar poemas e prosa da escritora.

Escrevendo Jacinta Passos, em jornais e revistas, um de seus temas, como foi dito, era a denúncia da opressão sofrida pelas mulheres, o que se refletiu até em seus poemas, como os abaixo:

Canção Simples

A flor caída no rio
que a leva para onde quer
sabia disso e caiu,
seu destino é ser mulher.

Mulher que tudo já deu
homem que tudo tomou,
é mulher que se perdeu,
é homem que conquistou.

(Canção da Partida)

Chiquinha

Chiquinha
Chiquinha
tão frágil,
magrinha.
Teu corpo miúdo,
O tempo secou,
As formas redondas,
o tempo gastou.

(...)

Teu corpo cansado
lutou no Egito
as mãos, mãos escravas,
abanaram leques
e teu corpo nu,
teus seios morenos
e teus pés pequenos
dançaram lascivos,
ligeiros, airosos,
deleitando o tédio
de reis ociosos.

Chiquinha,
teu corpo cansado,
foi corpo explorado
na Mesopotâmia,
na Pérsia e Turquia
- haréns de sultão –
foi pária na Índia,
na China e Japão.
Teu corpo explorado
foi mercadoria,
espada e cavalo
e vinho, foi orgia
na Arábia lendária,
de ardência e magia.

(…)

Chiquinha
Chiquinha
durante dez séculos,
teu corpo fechado
nas torres feudais
de imensos castelos
foi corpo arrancado
da terra, da vida,
corpo sem raiz,
feito puro de espirito,
mistério e tabu,
teu corpo adorado
foi corpo explorado.

(Canção da Partida)



Canção da partida

Bernadete é preta
é preta que nem tição.
Bernadete é pobre,
é pobre sem um tostão.

(...)

- Pelo sinal da pobreza!
- Pelo sinal de mulher!
- Pelo sinal!
da nossa cor!
Nós somos gente marcada
- ferro em brasa em boi zebu –
ninguém precisa dizer:
Bernadete, quem és tu?

(Canção da partida)

Abaixo coloco alguns de seus textos do livro Poemas políticos, embora eu deva salientar que a poesia vai muito além de uma questão momentânea. Mas quem sou eu para discutir com a autora o título que ela mesma lhe deu.

1935

Tenso como rede de nervos
pressentindo ah! novembro
de esperança e precipício.
Fruto peco.
Novembro de sangue e de heróis.
Grito de assombro morto na garganta,
soluço seco dor sem nome. Ferido.
De morte ferido. Como um animal ferido. Luta
de entranhas e dentes. Natal.
Sangue. Praia Vermelha.
Sangue.
Sangue. É quase um fio
escorrendo
sangrento
tenaz
por dentro dos cárceres,
nas ilhas
e nos corações que a esperança guardaram.

(Poemas políticos)

Canção atual

Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

Não quero a rosa do tempo aberta
nem o cavalo de nuvem
não quero
as tranças de Julieta.

Este chão já comeu coisa
tanta que eu mesma nem sei,
bicho
pedra
lixo
lume
muita cabeça de rei.

Muita cidade madura
e muito livro da lei.
Quanto deus caiu do céu
tanto riso neste chão,
fala de servo calado
pisado
soluço de multidão.

Coisas de nome trocado
– fome e guerra, amor e medo –

Tanta dor de solidão.

Muito segredo guardado
aqui dentro deste chão.
Coisa até que ninguém viu
ai! tanta ruminação
quanto sangue derramado
vai crescendo deste chão.

Não quero a sina de Deus
nem a que trago na mão.
Plantei meus pés foi aqui
amor, neste chão.

(Poemas políticos)

Mas devemos nos deliciar também com os poemas líricos de Jacinta, os quais têm a mesma força dos de cunho libertário. Em uma linguagem simples e direta, como foi a ação em sua vida, sem jogos figurativos muito requintados, atinge em todos a poesia que emociona.

Canção do amor livre

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.
Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno.

(Poemas políticos)

Cantiga de Ninar

Senhora Onda do Mar
vestida de verde com franjas de luar,
ninai meu filhinho fechai seu olhinho
seu soninho velai
que mamãe precisa fazer com papai,
Senhora Onda do Mar,
um planeta novo de neném morar.

Su su su
Quem dorme na lagoa
é sapo-cururu.

(Canção da Partida)

Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?
Esse gosto.
Donde será que ele vem?
Corpo mortal.
Águas marinhas.
Virá da morte ou do sal?
Esses dois que moram no fundo e no fim.

– De quem falas amor, do mar ou de mim?

(Canção da Partida)

Fecho a postagem com um poema de Jacinta Passos, que, parecendo antever sua grande ação social e seu final de vida, resume-a, assim, em 1942. Doente e com problemas de saúde, o que ficou da escritora foi mesmo sua essência lírica, o que atravessou o túnel do tempo e a traz de volta. Não é o que se diz dela, dados ligados à história do país, de um “indivíduo”, afinal, o que a marca mais fortemente, mas a força e verdade de um sujeito poético

Eu serei Poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras."

Eliane F.C. Lima, publicado em Literatura em vida 2, 10/10/2010

22.9.10

Três canções de amor (III)


III
Abra a porta,
queremos entrar.

Somos amantes,
queremos amar.

Hurra!
Que porta pesada.
Que porta caturra.

Empurra.


Abra esta porta!

Não somos mãos soltas,
frágeis no ar.

Somos punho e onda
e gigante e andar.

Abra esta porta!

Já cresce o gigante
maior que o mar!

A porta de bronze
vai arrombar.

(Jacinta Passos, 3 Canções de Amor (III), originalmente em Canção da partida, S.Paulo: Edições Gaveta, 1945, agora em: Jacinta Passos, Coração militante, Salvador: Edufba e Corrupio, 2010)
Imagem daqui

16.9.10

Goulart Gomes seleciona Jacinta Passos entre os 50 melhores livros baianos de todos os tempos

"Para quem deseja conhecer um pouco mais da Literatura produzida por escritores baianos, em todos os tempos, segue uma lista de 50 livros lidos e recomendados, por ordem de autor:


Corpo vivo, Adonias Filho
Luanda, Beira, Bahia, Adonias Filho
O Largo da Palma , Adonias Filho
Bugrinha, Afrânio Peixoto
Jau de bois , Aleilton Fonseca
Um cão uivando para a lua, Antonio Torres
Reportagem urbana , Aramis Ribeiro Costa
A ostra azul, Ariovaldo Matos
Berço Vazio , Artur de Sales
Música do Parnaso, Botelho de Oliveira
Aborigem, Carlos Loria
O visitante noturno , Carlos Ribeiro
Os escravos, Castro Alves
Berro de fogo e outros contos , Cyro de Mattos
Carmina e os Vaqueiros do Pequi, Dênisson Padilha Filho
O bem amado, Dias Gomes
O pagador de promessas, Dias Gomes
Procissão e outros contos , Gláucia Lemos
Crônica do viver baiano seiscentista, Gregório de Matos
Lili Passeata, Guido Guerra
Vento ventania vendaval , Helena Parente Cunha
Contos da noite fechada , Hélio Pólvora
O rei dos surubins, Hélio Pólvora
Cascalho, Herberto Sales
Odes brasileiras, Ildásio Tavares
Coração militante, Jacinta Passos
O telefone dos mortos , João Carlos Teixeira Gomes
Sargento Getúlio, João Ubaldo Ribeiro
Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro
Capitães de Areia, Jorge Amado
Gabriela cravo e canela, Jorge Amado
Jubiabá, Jorge Amado
Tenda dos Milagres, Jorge Amado
Dona Flor e Seus Dois Maridos, Jorge Amado
Viventes de Água Preta , Jorge Medauar
Inspirações do Claustro, Junqueira Freire
Língua Bailarina, Luciano Passos
Mares nunca dantes, Luís Germano Graal
Calendário, Márcia Tude
O inédito de Kafka , Mayrant Gallo
Femina, Myriam Fraga
O guesa, Pedro Kilkerry
As sombras luminosas, Ruy Espinheira Filho
Canção de Beatriz e outros poemas, Ruy Espinheira Filho
Iararana, Sosígenes Costa
Cação de areia, Vasconcelos Maia
Histórias da gente baiana , Vasconcelos Maia
Algaravia, Waly Salomão
O Reduto, Wilson Lins
A cidade encantada , Xavier Marques

Goulart Gomes
Publicado no Recanto das Letras em 15/09/2010

9.9.10

Novidades no site de Jacinta Passos!



No site, há várias fotos novas e também uma Cronologia, recém incorporada. E foi acrescentada toda a sessão de vídeos, com bastante material audiovisual: recital de poemas de Jacinta, PPS com a trajetória pessoal e poética da escritora,  entrevista de Janaína Amado. Um luxo!

4.9.10

Programa de TV sobre Jacinta Passos

Neste domingo, 5 de setembro, às 8 horas da manhã, com repeteco às 8 hs da noite, na TV SENADO, todo um programa "Leituras", de Maurício Melo Junior, dedicado a Jacinta Passos.

Quem não puder ver na tv, poderá acessar o site da TV Senado, e assistir por lá:

27.8.10

Revelações sobre Jacinta Passos e sobre a construção do livro


Há uma matéria grande, de autoria da jornalista Elexsandra Morone, sobre Jacinta Passos, sua vida e poesia. Acompanha a matéria entrevista com Janaína Amado sobre o livro recém lançado com a obra completa da poeta, tudo isso publicado na Gazeta de Alagoas. Não deixe de ler, é só clicar no link!

A matéria foi transcrita também neste link

17.8.10

Henrique Marques-Samyn escreve sobre Jacinta Passos




A REVOLUCIONÁRIA ESQUECIDA

Por Henrique Marques-Samyn



Jacinta Passos é um daqueles raros casos em que a trajetória biográfica e a literária despertam igual interesse. É difícil não admirar a história de vida dessa mulher que, para ser fiel a si mesma, ousava desafiar abertamente consensos e preconceitos, assumindo consequências que iam desde a censura familiar e social até a perseguição política. De fato, constam de sua biografia elementos que renderiam uma comovente obra romanesca: louváveis convicções morais (que levaram Jacinta, oriunda de uma tradicional família baiana, a recusar sua herança e a mudar-se para um então paupérrimo povoado sergipano a fim de conscientizar politicamente os pescadores que lá viviam – e que viriam a traí-la); uma assombrosa independência intelectual (que a levou a renunciar ao catolicismo que ardentemente professara até a juventude em prol da militância comunista); um temperamento singular (que a fez desafiar todas as convenções sociais que condenavam a mulher a uma posição submissa, defendendo sua autonomia profissional e sua liberdade sexual); e uma morte trágica, sucumbindo a uma esquizofrenia para a qual não havia um tratamento adequado.

Para além dessa extraordinária trajetória pessoal, Jacinta Passos foi a autora de uma vasta obra literária – dedicou-se principalmente à poesia, mas assinou também contos, minicontos e mesmo uma peça de teatro – e de importantes textos críticos e jornalísticos – que tratam da poesia brasileira nas décadas de 1940 e 1950 e da situação feminina, por exemplo. Seu lugar no cenário intelectual brasileiro pode ser mensurado por sua fortuna crítica, da qual constam textos assinados por nomes como Antonio Cândido, Sérgio Milliet e José Paulo Paes. Levando-se tudo isso em conta, impressiona perceber que Jacinta Passos é, hoje, uma escritora desconhecida, situação em que talvez permanecesse ainda por longos anos, não fosse a publicação deste monumental Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. Organizado por Janaína Amado, filha de Jacinta e professora aposentada da Universidade de Brasília, a obra tem um valor imensurável: com quase seiscentas páginas, o volume reúne toda a obra publicada de Jacinta, incluindo textos literários e jornalísticos, além de manuscritos inéditos; uma valiosa fortuna crítica, incluindo textos produzidos especialmente para a edição; uma biografia, assinada pela organizadora, construída com base em entrevistas e numa ampla documentação; farta iconografia e, finalmente, um amplo levantamento bibliográfico.

A estreia de Jacinta Passos em livro ocorreu em 1942, com a publicação de Nossos poemas, livro dividido em duas partes: a primeira, “Momentos de poesia”, que reunia 38 poemas de Jacinta; e a segunda, intitulada “Mundo em agonia”, que trazia obras assinadas por seu irmão, Manuel Caetano Filho. Obra de uma autora jovem, ainda em busca de uma voz própria, mas indiscutivelmente promissora, mereceu a atenção de destacados nomes da crítica literária baiana daquela época: Carlos Chiacchio qualificou-a como autora “sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma”; Lafaiete Spinola censurou o gosto pela abstração da jovem poetisa, a seu ver artista “senão de momentos grandiosos, pelo menos de delicados painéis”, nela ressalvando “um defeito raro nas mulheres”, a seu ver: o de pensar. Aos olhos contemporâneos, essa parte da produção de Jacinta Passos se revela em grande parte datada, por muito devedora da estética em cujo âmbito foi concebida; não obstante, ali encontramos um poema como “O canto de amanhã”, menos metafísico e mais próximo do tom político em que a poetisa encontraria seu temário principal (“Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens se servem, / entre pedras, ferro, pai, mãe, / ouro, árvores, filhos, irmãos e companheiros, / entre animais, carvão, petróleo, alavancas e máquinas. / Minha cabeça se curve ao peso da fria injustiça organizada e aceite / e receba a piedade como último insulto.”).

Em 1945, surge Canção da partida. Publicado em tiragem de 200 exemplares, numerados e assinados pela autora, a esmerada edição trazia 5 desenhos de Lasar Segall preparados especialmente para a obra. Esses poemas registram uma mudança fundamental no lirismo de Jacinta: é perceptível a renúncia à artificiosa dicção da obra anterior, que culminava numa poesia vaga e totalizante, e a consequente construção de uma poesia que adere ao mundo, incorporando elementos biográficos. Essa guinada não passaria despercebida aos atentos olhos de Antonio Candido, que acusa o afastamento da “austeridade formal” e da “elevação de tom” dos poemas anteriores de Jacinta Passos, revelando sua preferência pelos poemas de metro curto, nos quais a autora “revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica”. O melhor do livro, a meu ver, são justamente os poemas em que se estabelece a síntese entre a dicção mais concreta e menos dilatada e aquele impulso para o universal, matizado por uma inabalável esperança política, essa já presente na obra anterior; disso resultam excelentes poemas como “Navio de imigrantes” (“Arca ou navio, / nau ou galera, / vens doutra era, / séculos a fio. // Qual o teu rumo? // Levas o sumo / da dor humana / que se supera, / vida ou quimera.”) e “Sangue negro” (“Terras curvas do Recôncavo / onde adormece o oceano, / de tuas veias abertas / escorre / o petróleo baiano, / sangue negro do Brasil.”).

Os dois últimos livros de Jacinta demonstram o amadurecimento de tendências já presentes em Canção da partida. Poemas políticos, de 1951, é o raro registro de uma poesia fortemente engajada e marcadamente histórica que, no entanto, preserva sua força estética, como lemos em “O rio” ou “O enforcado” (“Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes? / o quinto do ouro, a família real, e o vinte e um de abril? / Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo / no turvo. O demônio da guerra / nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: — Não podemos parar.”); traz o livro também “Canções líricas”, entre elas a extraordinária “Canção atual” (“Quanto deus caiu do céu / tanto riso neste chão, / fala de servo calado / pisado / soluço de multidão”.). A Coluna, de 1975, é um pujante épico que, em 15 cantos, resgata a Coluna Prestes — admirável tour de force que coroa a obra de Jacinta Passos, revelando uma autora de pleno domínio formal, dotada de uma singular competência para traduzir o ideário político em imagens poéticas, esquivando-se aos riscos do panfletarismo; transcrever fragmentos da obra resultaria na fragmentação de um discurso poético que prima por sua consistência e unidade, razão pela qual não isso não será feito aqui.
Resgatada do esquecimento, a poesia de Jacinta Passos vem recebendo estudos que reavaliam um conjunto de parâmetros críticos que, por longo tempo, ensejaram o seu reconhecimento como obra menor; exemplo disso são as pioneiras avaliações de Carlos Chiacchio, Lafaiete Spinola e Sérgio Milliet, que ainda a leram como expressão de um essencializado “lirismo feminino” (a expressão é de Chiacchio; Milliet louvou em Jacinta o fato de ela não “se esquecer” de que é mulher, ao passo que Spinola, como anteriormente mencionado, nela censurou o “defeito” de pensar, que considerava “raro” nas mulheres). O volume organizado por Janaína Amado traz uma amostra dos novos estudos dedicados à obra da autora baiana, que tendem a repensar o seu lugar na história da poesia brasileira; esse, no entanto, é um trabalho que apenas se inicia. É chegada, enfim, a hora de reler Jacinta Passos.

(Texto publicado na revista on-line Speculum, em 21/08/2010; versão resumida do texto foi publicado pelo autor no Jornal do Brasil, on-line e impresso, sob o título "O Consenso às avessas", em 11/08/2010).

12.8.10

Resenha de Luis Flávio Godinho sobre "Coração Militante"


Li a obra Jacinta Passos - Coração Militante, organizada pela historiadora Janaína Amado (1) com o mesmo afinco com que na adolescência e fase precoce da vida adulta,li Feliz Ano Velho, há 25 anos, e Olga Benário há duas décadas, respectivamente. Obras de apelo popular, ambas retratadas no cinema, mas que possuem a mesma temática do sofrimento familiar, dos acidentes de percurso e sofrimento subjetivo em contextos políticos híbridos: despótico-democráticos!

E digo! Em dramaticidade, a vida desta mulher guerreira, incompreendida pelo sistema social, nada fica a dever.

Li, em um único dia, todos os textos escritos pela autora Janaína Amado. O ponto alto é o texto biográfico-histórico que impressiona por demonstrar a construção da objetividade frente à história, visto que a organizadora é filha de Jacinta Passos, tendo sido apartada de seu convívio desde a tenra adolescência bem como tendo tido uma relação complexa com sua genitora. Acredito que Amado conseguiu, nesta obra, o que Geertz denomina “Tratar o familiar como exótico", no que diz respeito à abordagem historiográfica e aos dados tão subjetivos de que tratou.

Dentre as principais considerações, enumero, por exemplo, a constatação de que Jacinta Passos foi uma mulher muito à frente de seu tempo, os anos de ouro do capitalismo, chamado no Brasil de Anos Dourados, entre 50 e 70.

Esta poetisa viveu muitas identidades: professora de matemática, militante católica, intelectual do PCB, jornalista literária, filha de família de elite de Cruz das Almas, Bahia, a família Passos (2); Jacinta foi jornalista militante do catolicismo social e do PCB, em fases distintas de sua vida, assim como desenvolveu atividade de poetisa, jornalista ligada às artes, analista literária e mãe.

Sua obra foi abordada por Chiacchio, Cândido, Lasar Segall, dentre outros ícones da crítica literária nacional e/ou das artes.

Tomo por hipótese que Jacinta Passos foi a Leila Diniz de seu tempo, já que desafiou os valores estabelecidos, ou dito de outro modo, para ser cronologicamente coerente, Leila Diniz foi a Jacinta Passos de sua época.

A história das representações sociais sobre a mulher da Bahia, na primeira metade do século XX, não pode prescindir dessa leitura, bem como estudos que desejem analisar profundamente, aspectos como: crítica às instituições totais de tratamento de saúde mental, o acerto das bandeiras da luta anti-manicomial, os estigmas associados à condição de mulher de vanguarda em um mundo público masculino, tudo isso se desenrolando entre os anos 40 e início de 70.

As passagens pelas internações psiquiátricas são o grande fio condutor da história, na medida em que  revelam um espírito incompreendido pelo sistema familiar e social, visto que viveu durante sua curta vida, para os padrões atuais, muito tempo aos “cuidados” terapêuticos baseado em eletrochoques que nada contribuíram para tratá-la ou curá-la.

Exatamente durante suas internações nessas instituições totais viveu sua mais produtiva fase de escritora e literata, pois produziu mais de mil páginas em seus últimos três anos de vida e nos legou poemas como “ Duas Américas”, que já nasceram clássicos.

O ponto forte de sua produção são a poesia "Canção de Partida" e "Duas Américas", poemas distintos, de épocas diferentes de sua vida, mas que anunciam a marca de sua obra: homens e mulheres concretos do meio rural e a poesia de conotação política e socialista, com inspirações revolucionárias.

Acerca desta questão da concretude da criação literária, Jacinta Passos escreveu uma análise literária, em jornal baiano dos anos 40, que tem ares atualíssimos no debate em uma perspectiva literária marxista: a poetisa acredita que o campo literário precisa dar conta do real, das condições de vida dos homens e mulheres que retrata. Torna-se interessante enfatizar que Antônio Cândido, ao tecer comentários sobre a produção literária de Jacinta, faz uma comparação com a obra de um também iniciante nesta seara à época, o poeta João Cabral de Mello Neto, ambos nordestinos e autores que analisam os homens e mulheres rurais, as contradições sociais e a política.

Jacinta Passos é dona de uma grande veia irônica, não deixando de lado da análise, nem mesmo as relações no bojo de sua família, que expressam muito das relações familiares de sua época, baseadas na lógica: mulher se cria para procriar e casar com homem de posição, enquanto homem para reproduzir e viver dos negócios e da política. Jacinta inverteu as duas lógicas bem como expôs todas as contradições e  ambigüidades de seu seio familiar. Ressalte-se seu incrível poema que aborda a ambigüidade de sua posição de classe, se burguesa ou proletária, quando ainda vivia sob influência dos pais!

Este pioneiro estudo deixou flancos abertos para futuros estudos, tais como: análise sobre conflitos entre visões de mundo burguesas e socialistas no seio de uma família rururbana (3), a produção social da loucura feminina, o status social de mulheres que ousam viver a frente de seu tempo, abandono familiar e produção literária, partidos de esquerda e trajetórias sociais, as fronteiras entre ideologia, dogmatismo e tradução subjetiva de valores políticos, etc.

Afirmo que o livro de Janaína Amado, uma bela bio-história de sua genitora foi uma grande conquista literária bem como nos ajuda muito a entender a Bahia e a vida das mulheres rebeldes dos anos 50 do século passado. Recomendo a leitura a todos que se interessam pela relação entre literatura, história e memória de famílias.

Alguns pontos merecem maior aprofundamento: a relação Jacinta e Janaína, a relação de Jacinta-James Amado, Janaína e família materna, bem como família Amado x Família Passos, famílias, respectivamente do cacau e do fumo do interior da Bahia. Investigadas essas relações, poderíamos compreender melhor os não ditos desse intrincado, dramático e potente escrito biográfico e histórico que conecta, ao mesmo tempo a história social das mulheres, a arte e a vida de uma grande poetisa e das famílias rurais baianas do século passado. Por fim, registro meu apreço pela poesia de Jacinta que, abordando “homens e mulheres que não “nasceram com colheres de prata em suas bocas”, contribuiu para revelar um olhar sensível sobre os de baixo, conforme inúmeros poemas que tematizaram empregados domésticos de sua família.
______________________

(1) Fui ao lançamento do livro, em fins de julho de 2010, na cidade de Cruz das Almas, Bahia, conheci a organizadora/autora da obra, a Professora titular aposentada de História da UnB, Prof.a Janaína Amado. Até aquele momento não associava a autora desta obra com a Janaína Amado que escreveu em parceria com Ferreira outra obra que já tive nas mãos, o importante livro  Usos e abusos da História Oral.
(2) Família que dá nome a tudo naquela cidade e empresta significado a concepções locais de prestígio, poder e posição social: praça central, bairro, ruas, mitos, etc.
(3) Esta questão da família rururbana é uma das questões interessantes que aparecem na trama, demonstrando o que, em outra publicação, denominei "Salvadorcentrismo".

Luis Flávio Godinho
Doutor em Sociologia
Professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

10.8.10

Fotos do lançamento de "Jacinta Passos, coração militante" em Aracaju

O lançamento, muito concorrido, ocorreu no Palácio-Museu Olimpio Campos (todo reformado, lindo, agora aberto ao público), a 6 de agosto. Houve muito interesse, em Sergipe, em torno da obra e da vida de Jacinta Passos, que morou 13 anos no Estado.


Da esquerda para a direita, a escritora Gizelda Morais, Zelita Correia, o escritor e pesquisador Jackson Lima e Janaína Amado.

Com Maria Lúcia Falcón, Secretária de Planejamento do Estado.

Com Oliveira Junior, Chefe da Casa Civil do Governo de Sergipe.
Ibarê Dantas, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, e sra.

Membros da família Amado residentes em Sergipe prestigiaram o lançamento: desde a esquerda, Dalmo, Joyce, João Filho, Goretti e João Freire Amado, com Janaína.


À esquerda, José Cláudio Teixeira, coordenador de Pesquisa e Educação do Palácio-Museu Olimpio Campos; e o professor Gilfrancisco Santos, que publicou livro sobre Jacinta Passos. 
Com o poeta e escritor Estácio Bahia Guimarães

Desde a esquerda, Flávia Garcia Rosa, diretora da EDUFBA, e Zelita Correia, que foi entrevistada para o livro.

Assistindo a um PPS sobre Jacinta, antes do início do lançamento. 


Palácio-Museu Olimpio Campos

Com Pascoal Maynard, no programa de tv "Expressão"

3.8.10

O lançamento agora é em Aracaju!

Jacinta Passos viveu os últimos 11 anos (1962-1973) em Sergipe, parte deles em Barra dos Coqueiros, onde morava humildemente entre pescadores, parte em Aracaju, militando politicamente dentro do PCB. A escritora retorna agora simbolicamente a essa cidade, com suas poesias e textos em prosa, conforme se lê no convite abaixo:

1.8.10

Fotos do lançamento em Cruz das Almas

Em Cruz das Almas, BA, onde Jacinta Passos nasceu, foi lançado na Casa de Cultura o livro que contém a obra completa, biografia e fortuna crítica da escritora, organizado por sua filha Janaína: Jacinta Passos, coração militante. Foi uma noite concorrida, bonita, alegre, emocionante, a  do retorno de Jacinta Passos à sua terra natal. Algumas fotos do lançamento e atividades ligadas a ele: 


Janaína com a veterinária e ceramista Ana Paula Peixoto, que carrega o livro, e a poeta e atriz Lita Passos.

Com o prefeito Orlandinho Peixoto Pereira Filho e a primeira-dama Cilene, que apoiaram o evento.

A partir da esquerda: Graça Sena, presidente da Casa de Cultura, que promoveu o lançamento do livro, Janaína, Cássia e Lita Passos.
O vereador Max Passos (descendente de Jacinta), sua esposa Aline, Lita, Louzane e o cientista e poeta Hermes Peixoto. 
Graça Sena, Cássia e a poeta Maria da Conceição Paranhos, de Salvador.

Com Fabrício, da diretoria da Casa de Cultura, e Lita Passos.
Geysa Coelho e Lita Passos apresentaram recital com versos de Jacinta Passos.
Janaína Amado autografando o livro. 


Convidando a população: na rádio Santa Cruz, com o radialista Silvinho Caldas...


... e na Rádio Alvorada, com Lita Passos, o radialista e entrevistador Leônidas e, de costas, o escritor Alino Matta Santana. Nas paredes, fotos de edificações bonitas da cidade.

 Emoção: à porta da casa-grande da fazenda Campo Limpo, onde Jacinta Passos nasceu.

21.7.10

Lançamento do livro de Jacinta Passos em Cruz das Almas, Bahia

Veja abaixo: no próximo dia 27 de julho, terça-feira, será lançado em Cruz das Almas, terra natal de Jacinta Passos, o livro que reúne toda a sua obra, além de biografia, fortuna crítica e ensaios inéditos sobre a poetisa baiana. Se você é da cidade ou da região, compareça! A filha da escritora, Janaína Amado, estará presente, e falará sobre o livro e sobre Jacinta. Além do lançamento, nessa noite haverá outras atividades na Casa de Cultura Galeno d´Avelirio, como você confere aqui.

18.7.10

Texto de Marcus Gusmão sobre "Jacinta Passos, Coração Militante"


"Subi para pegar as últimas coisas e checar se não havia esquecido nada. Acabei recolhendo alguns livros, gesto tantas vezes repetido na intenção de ler na viagem. Normalmente voltam quase do mesmo jeito que vão. Entre os candidatos a apenas uma folheada estava ele, com suas 580 páginas no formato 16 X 22 cm: Jacinta Passos, coração militante. Poesia, prosa, biografia, fortuna crítica.
O livro já me havia fisgado. Pelos posts de Janaína sobre a mãe no blog Acreditando no Truque e pelos retratos de época ali contidos.
Ao chegar a Iaçu, o livro caiu primeiro nas mãos de quem de fato lê nesta casa. Soraya então me instigou com o trailer, narrou o último encontro de Janaína com Jacinta, num sanatório, um dos trechos mais comoventes da biografia, falou dos dias de Aracaju, quando Jacinta morou numa lona e mandou de volta para a mãe uma mala recheada de presentes, chateada com a venda do sobrado onde vivera com a família, em Nazaré.
Achei que ia me identificar com a Jacinta no nosso diagnóstico – sim, também já recebi o carimbo psiquiátrico, embora em circunstâncias distintas. Mas me surpreendi ao me identificar com Jacinta desde muito antes, na perspectiva de quem tem no interior suas raízes, de quem admira o céu estrelado da infância, de quem chega a Salvador e encontra o sol, encontra o mar. De quem um dia acreditou na concepção católica de Deus e no comunismo construído por um partido.
Janaína foi filha, escritora, historiadora, arqueóloga. Expôs seus medos, sua dor, seu amor. Montou paciente e meticulosamente um belo suporte. Como uma curadora e guia de uma exposição, conectou peça por peça, deu sentido, recuperou, colocou sob perspectiva uma época, uma obra, uma vida.
Li o livro como quem vê um filme. A história de Jacinta daria um belo filme. Imagino a cena de uma moça ao lado de um jovem pelas ruas da Cidade Baixa, na Salvador de 1941, a caminho de um endereço por ele ignorado. Ela havia conquistado o moço, decidiu se entregar a ele e emprestou a casa de uma amiga para contrariar o destino das mulheres de então, descrito no seu poema Canção Simples: Mulher que tudo já deu, homem que tudo tomou, é mulher que se perdeu, é homem que conquistou.
Daria também uma bela sequência a negociação com o padre que se recusava a batizar a sua filha Janaína. Só concordou quando ao nome da rainha das águas foi acrescido o de Maria.
Imagino no filme também o registro de imagens da guerra, sob a perspectiva de uma jovem baiana, que acompanhou com textos precisos o cenário internacional, registrou as batalhas mais importantes até a derrota do nazismo.
E a poeta Jacinta? Fico com o ponto de vista de Ildásio Tavares, para quem a poesia não é um discurso ideológico, tampouco estético ou social: “A poesia é um discurso poético”. Ildásio despe a poesia de Jacinta dos rótulos para saudá-la uma das mais significativas da nossa literatura. E no poema Eu serei Poesia, de 1942, Jacinta parece concordar com este ponto de vista:
A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.

Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

Ao ler os demais textos da fortuna crítica, o que se escreveu sobre Jacinta Passos, a gente se depara com o universo paralelo dos especialistas, com suas verdades e comparações, cada um puxando a brasa para sua sardinha ideológica, cada um expondo seus saberes, apontando aqui e ali qualidades e defeitos. O próprio Ildásio Tavares escorrega ao elogiar um verso por causa da troca de um “normal” vou morar debaixo da ponte por vou morar junto da ponte como recurso, “artesania” da autora para não quebrar uma redondilha. Na verdade, Jacinta foi morar com a família perto da ponte mesmo, nas margens do Paraguaçu, em Cachoeira.
Como diria Freud, um charuto pode significar apenas um charuto. O que vale mesmo é a interpretação de cada um, o que cada um entende e sente. Parodiando uma outra poeta, é mais prudente aceitar que uma poesia é uma poesia, é uma poesia, é uma poesia.
Ganhei de brinde ao fim da leitura uma palavra nova, macia, bacana mesmo: amanhecente. A palavra é utilizada quando Jacinta fala de sua Campo Limpo, das noites estreladas da sua infância, da sua, da nossa vida amanhecente.
Compartilho aqui também alguns dos muitos versos e frases, sublinhados durante a leitura:

Olhos, pés, mãos, boca, sexo, fronte,
que encarnaram os mais fugitivos movimentos do espírito,
que amaram, pensaram, sentiram, viveram,
e a morte, de súbito, petrificou.
Por que esperam os corpos abandonados
na branca solidão do vasto cemitério?
Morrer não é escolher

Ó! A poesia deste momento que passa,
a grande poesia vivida neste instante
por todos os seres da terra
O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?
Cantar a sua dor de eterno insatisfeito,
cantar o seu sonho infinito desfeito,
cantar o mesmo canto que embalou a infância do mundo.
- Casa e comida é detenção?
- Para gato, não.
tão lúcido e tão puro,
insegura!

Nosso amor é como tudo,
um vaivém
Despir as coisas
de suas transitórias aparências
Porque estás triste, Maria?
deixa Manuel xingar,
xingar também alivia:
é uma forma de chorar
Juízo de menino travesso (depois de quebrar um pente em pedaços):
- Quanto pente!
Há em torno de mim muralhas glaciais.
Vivo encerrada dentro de mim mesma,

debruçada

sobre estas profundezas abissais
Uma gota d’água… é água.
nas tuas mãos ávidas tateando o meu corpo como se quisessem guardar nas pontas dos dedos a memória de minhas formas
Se me quiseres amar
não despe somente a roupa
Eu digo também a crosta
feita de escamas de pedra
E limo dentro de ti
Água dos mares da Bahia.
Na sombra aqui destas asas
até um dia"
Este texto foi publicado em 04/07/2010 às 22:57, por Marcus Gusmão, no Licuri